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  Geografia Geral e do Brasil


HOMEM X NATUREZA

Todas as pessoas que vivem hoje descendem de sobreviventes das grandes catástrofes naturais, que deixaram marcas na história humana
A saga do homem e de seus ancestrais na Terra, iniciada 6 milhões de anos atrás, costuma ser narrada do ponto de vista de suas grandes conquistas, da descoberta do fogo e da invenção da roda até a tecnologia impressionante que move o mundo de hoje. Regozijamo-nos por nossa racionalidade, única entre os animais, e nos enxergamos como heróis do universo. Ao levar em conta o cenário em que essa aventura transcorre, chega-se à conclusão de que a verdadeira proeza do homem foi ter sobrevivido às forças da natureza. Há 30.000 anos, a era glacial varreu do planeta espécies como o mamute e o tigre-de-dente-de-sabre, mas o Homo sapiens prosseguiu em seu processo evolutivo. Desde então, é surpreendido por catástrofes cujo poder de destruição é infinitamente superior a sua capacidade de reagir a elas. Diante dos grandes furacões, terremotos, vulcões e avalanches, evidenciam-se ao mesmo tempo a fragilidade do ser humano e sua capacidade de superar as tragédias impostas pela natureza. "A civilização existe pelo consentimento geológico, sujeito a mudanças sem aviso", sintetizou o historiador americano Will Durant.

Os 160.000 mortos e os desabrigados pelo tsunami que se abateu na Ásia duas semanas atrás podem representar apenas um saldo inicial. Catástrofes como essa, depois de contabilizadas as vítimas e calculados os estragos, costumam ganhar uma dimensão muito mais ampla à medida que a história avança. Muitas delas influenciam de maneira decisiva o destino do planeta e da humanidade. O movimento das monumentais placas tectônicas da crosta terrestre, que causam os vulcões e terremotos, definiu o formato dos continentes e oceanos como hoje os conhecemos, e continuará definindo nos milênios que virão. A América do Sul se afasta da África à velocidade constante de 5 centímetros por ano. No século XIV, a peste negra, facilmente transmitida pelos ratos nos burgos fechados e fétidos da Europa, dizimou um terço da população do continente. Em 1400, os vikings tiveram de abandonar a Groenlândia quando uma pequena idade do gelo tornou a vida na região inviável. Fragmentos da erupção do Vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, atingiram regiões tão altas da atmosfera que permaneceram suspensos por quase cinco anos, causando uma diminuição de 1 grau na temperatura do globo – por obstruir parte dos raios solares – e modificando as cores do pôr-do-sol na Europa, na Ásia e na África.

Os desastres naturais também costumam ter grande influência na vida política e social dos países. O historiador francês Fernand Braudel, autor do clássico O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico, sustentava que a monarquia francesa teria mais chance de ter sobrevivido se as forças na natureza – no caso, uma série de invernos extremamente rigorosos que se abateu sobre a Europa no fim do século XVIII – não houvessem destruído as colheitas, espalhando a fome e a miséria entre a população. Para Braudel, a monarquia de Luís XVI poderia ter resistido à Revolução Francesa de 1789 se a França vivesse uma época de climas amenos e boas safras. Calcula-se que o fim da civilização mocha, que floresceu no primeiro século da Era Cristã na região que hoje abriga o Peru, tenha sido precipitado por uma combinação de terremotos e tempestades que destruíram sua malha de canais de irrigação para a agricultura, que desciam da Cordilheira dos Andes. Mais recentemente, em 1999, dois desastres naturais foram responsáveis pela reaproximação entre a Turquia e a Grécia, países que havia tempos travavam renhidas disputas territoriais por ilhas do Mar Egeu, ricas em petróleo. Um terremoto na Turquia matou 15.000 pessoas e devastou parte do parque industrial do país. Os gregos enviaram ajuda humanitária e, um mês depois, quando outro terremoto vitimou a Grécia, os turcos retribuíram. Na esteira do recente tsunami da Ásia, a expectativa é que o esforço de reconstrução das regiões atingidas acabe por encaminhar soluções pacíficas para conflitos separatistas na Indonésia e no Sri Lanka.
Os geólogos e cientistas que estudam as catástrofes naturais temem que elas façam cada vez mais vítimas. Isso porque cada vez mais pessoas habitam áreas ameaçadas por furacões, terremotos, vulcões e inundações. Nas regiões ricas do planeta, os riscos são minimizados por meio de obras de infra-estrutura adequadas. Na Califórnia, por exemplo, freqüentemente atingida por terremotos – e que abriga a Falha de San Andreas, uma rachadura na terra de 1.350 quilômetros que marca o encontro entre duas placas tectônicas e pode um dia ser o epicentro de um tremor de enormes proporções –, os prédios, as pontes e os viadutos são construídos com alicerces "flexíveis" e estruturas capazes de resistir a choques. A principal preocupação é com os países pobres, com densidade populacional cada vez maior e casas erguidas com argila, taipa e outros materiais frágeis.

É uma realidade estatística que as fatalidades que se abatem sobre os países menos desenvolvidos costumam produzir mais vítimas do que aquelas que ocorrem nas nações do Primeiro Mundo. Isso se dá pela falta de recursos para evitá-las, pela falta de infra-estrutura para minimizar suas conseqüências ou simplesmente por aspectos culturais – ignorância da população ou descaso das autoridades. No terremoto que soterrou a cidade iraniana de Bam, em 2003, a maioria das 40 000 vítimas fatais morreu esmagada pelo telhado da própria casa. Segundo cálculos do sismologista Kerry Sieh, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, um terremoto de 7,5 pontos na escala Richter (de alta intensidade) que atingisse Los Angeles hoje mataria 50.000 pessoas. A mesma catástrofe, se acontecesse em Teerã, ceifaria mais de 1 milhão de vidas. As duas cidades têm o mesmo tamanho. Segundo um estudo da Universidade do Arizona, no início da década de 60 ocorriam no mundo 100 desastres naturais com vítimas por ano. Na década atual, são 500 por ano. Isso significa que os desastres naturais hoje vitimam cinco vezes mais pessoas que há 40 anos.

Depois do tsunami da Ásia, geólogos e cientistas voltaram a insistir num assunto que só vem à baila diante da lista de vítimas de uma catástrofe. Tanto os governos quanto a iniciativa privada se prontificam a ajudar regiões e populações atingidas, mas fazem muito pouco pela prevenção dos desastres naturais. Um bom exemplo disso é a recusa das nações do Pacífico, que persistia até há duas semanas, em estender seu sistema de detecção de tsunamis para o Oceano Índico. Segundo um estudo da Tearfund, uma ONG inglesa especializada em ajuda às vítimas de desastres naturais, menos de 10% do que se gasta nessa área se destina à prevenção de novas catástrofes. Os cientistas dizem que os políticos não se interessam por essa causa porque ela não lhes traz visibilidade e, além do mais, trabalha com probabilidades – quase sempre muito baixas.

Nos últimos tempos, os astrônomos também têm se juntado ao coro dos que reclamam por medidas de precaução mais amplas e eficazes. Nesse caso, porém, eles acenam com o risco de um desastre de proporções apocalípticas – o choque de um asteróide com a Terra. Em 1908, um meteoro de 70 metros de diâmetro explodiu na Sibéria a apenas 5 quilômetros do solo, devastando uma floresta de 2 000 quilômetros quadrados, área maior que a da cidade de São Paulo. A potência destruidora da explosão foi equivalente à de 1.000 bombas iguais à lançada sobre Hiroshima. Imagine-se o que aconteceria se ela tivesse ocorrido sobre uma região habitada do planeta. Os cientistas prevêem que esse fenômeno pode se repetir, e, por isso, a Nasa tem um programa especial para mapear os asteróides que se aproximam de nós em órbitas perigosas. Desviá-los da rota de colisão com a Terra é uma tarefa perfeitamente viável, mas isso exige que a ocorrência do choque seja detectada com vários anos de antecedência. Os astrônomos alegam que a agência espacial americana gasta apenas 4 milhões de dólares anuais – de seu orçamento de mais de 10 bilhões – com o programa de detecção de asteróides, e que por isso só daqui a dez anos vão ser colhidos os primeiros resultados das pesquisas.

Okky de Souza
Revista Veja, Edição 1887, 12 de janeiro de 2005

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ATUALIZADO EM 28//06/2016