Página inicial
Sala de leitura
Enem
Críticas e sugestões
Eventos
Links paratodos
videos
 


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA ALGUNS VIDEOS DIDÁTICOS CPTEC.INPE


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA JOGO – QUEBRA CABEÇA COM MAPA-MÚNDI FÍSICO


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA MAPA INTERATIVO DAS EMISSÕES DE CO2 NOS DIFERENTES PAÍSES DO MUNDO E DADOS DEMOGRÁFICOS.


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E JOGUE COM O MAPA DA EUROPA


CLIQUE NA IMAGEM E LEIA AS MANCHETES DE HOJE DOS JORNAIS DE TODO O
MUNDO.


VEJA O QUANTO VOCÊ CONHECE SOBRE CONTINENTES E OCEANOS


2 JOGOS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL


CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA O MAPA-MÚNDI INTERATIVO

site www.geocienciasnomapa.com.br
CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA UM SERVIÇO DE LOCALIZAÇÃO ESPACIAL DE TESES E DISSERTAÇÕES EM GEOCIÊNCIAS

  Geografia Geral e do Brasil ,

SÓ KIRCHNER SALVA!

Parecia impossível, mas aconteceu. Na manhã da terça-feira 1, os argentinos acordaram com a notícia de que 75% de uma dívida de US$ 81,8 bilhões foi riscada do mapa. Tal foi o desfecho de uma odisséia iniciada oito meses atrás, quando o presidente Néstor Kirchner decidiu encarar o mercado financeiro e apresentou a mais dura proposta de renegociação de dívida já feita por um país devedor – a oferta consistia em pagar 25% do débito, trocando os papéis antigos por novos, com juros baixos e prazo de 42 anos. Kirchner foi ridicularizado, tripudiado até. Mas o inacreditável ocorreu. A grande maioria dos credores da Argentina, contrariando todos os prognósticos, aceitou a proposta. Com um índice de adesão de 76%, consolidou-se o maior calote já aplicado por um governo aos seus credores em toda a história financeira global. Triunfante, Kirchner anunciou a vitória ao Congresso. “Com grande esforço, deixamos a moratória e, pela primeira vez, um processo de renegociação culminou com a drástica diminuição do endividamento de um país”, disse Kirchner, diante de parlamentares encantados. E fez propaganda: “Não se pagará a dívida com a fome e a sede do povo argentino”. Pelas ruas do país, na capital Buenos Aires, em lojas, no chão de fábricas, nos shoppings e em todo o centro comercial, o clima era de comemoração. Definitivamente, a vitória cria um precedente nas relações financeiras multilaterais. Países credores, agentes financiadores e eximbanks, ao abrirem o precedente, deram um recado ao mundo dos devedores: podemos conversar. Neste clube está o Brasil, com uma das maiores dívidas externas do mundo e que, nos últimos tempos, se comportou como modelo, “garoto de ouro” do FMI, cumprindo – e até ultrapassando – metas de superávit fiscal, mantendo no eixo sua taxa de inflação e praticando um festival de juros altos para atrair o capital externo. O Brasil seguiu um modelo que, até aqui, só engordou ainda mais a sua dívida. A Argentina, ao contrário, a fez evaporar e ainda entregou taxas generosas de crescimento econômico (da ordem de 9% ao ano), mais empregos, menos impostos e juros mais baixos. Na semana passada, Brasil e Argentina entravam na análise de algumas agências de risco praticamente com a mesma taxa. E se a Argentina em moratória já apresentava números auspiciosos, é de se imaginar que daqui por diante, livre do fardo maior de sua dívida, ela poderá alçar vôos ainda mais altos. No Brasil, resta a discussão: seguir entregando mais do que pode ou aprender com o vizinho e mudar sua história. “A renegociação pode servir de cotejo para países com problemas semelhantes”, alfinetou o chanceler argentino Rafael Bielsa.

O êxito de Kirchner levou alguns analistas a apontarem que, guardadas as proporções, o presidente argentino poderá emergir como um novo Simon Bolívar – libertando países devedores dos credores. Um sinal nessa direção parecia ser dado já na quarta-feira 2, em Montevidéu, quando ele posou ao lado dos presidentes do Brasil e da Venezuela, Lula e Hugo Chávez, para anunciar que os três países passarão a adotar uma estratégia comum nas negociações com o Fundo Monetário Internacional. Kirchner quer endurecer ainda mais com o FMI e os orga-
nismos multilaterais de crédito. Ao menos nessa seara, pode ser que o Brasil siga junto. “Os países do Sul têm que se unir; começamos a acreditar em nós mesmos, nas nossas forças”, concedeu o presidente Lula no encontro.
Uma decisão já tomada pela Casa Rosada, que será levada pelo ministro da Fazenda, Roberto Lavagna, ao FMI é a de não produzir um superávit fiscal superior a 3% do PIB – o arrocho brasileiro é de 4,25%. A segunda decisão argentina é rever os contratos de todas as empresas privatizadas, algo que deixa a banca de cabelo em pé. Mas Kirchner parece que tudo pode. Diante do novo quadro, o economista Aloisio Araújo, da FGV, acredita que o próprio Fundo irá rever alguns dos seus conceitos. “Eles podem reeditar a idéia de criar um regime de concordata para países emergentes”, avalia.

No governo Kirchner, o desemprego caiu de 25% para 12%. Um dos pilares é uma política monetária expansionista, com juros negativos. O rendimento dos títulos de referência do Banco Central da República Argentina varia entre 2,75% e 3,25%. Mesmo assim, a inflação de lá vem sendo menor do que a brasileira. No ano passado, os preços subiram 6,1% na Argentina e 7,5% no Brasil. Por trás dessa política, há a mão do jovem economista Martín Redrado, de 43 anos, que preside o BC dos argentinos. Em vez de conter a inflação via juros, Redrado tenta domá-la controlando a quantidade de moeda em circulação – os chamados agregados monetários. No campo externo, Redrado comanda uma agressiva política de acumulação de reservas (já são quase US$ 25 bilhões). E há ainda um sistema de câmbio competitivo – sempre que o dólar ameaça cair abaixo de 2,90 pesos, o governo compra divisas. O próximo passo de Redrado será o controle de capitais. Estima-se que, com o sucesso da renegociação, haverá um fluxo crescente de dólares para a Argentina, o que pressionará a cotação do peso para baixo. Para evitar que isso aconteça e prejudique as exportações, o Banco Central estuda impor um prazo mínimo de permanência dos capitais especulativos. “Não somos dogmáticos; somos pragmáticos e o que é necessário fazer, se faz”, tem dito Redrado. São essas sutilezas na condução da economia que causam uma certa inveja entre os empresários brasileiros. “A Argentina tem lições a ensinar que não passam pelo calote”, diz o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o Iedi. “Eles têm sido mais flexíveis e mais atentos às reais necessidades da produção.” Os empresários de lá, de fato, estão satisfeitos. “Há muito tempo não havia um clima tão favorável a novos investimentos”, diz Nestor Mildenberger, diretor do Parque Industrial de Pilar, um dos principais da Argentina, com 140 empresas instaladas e exportações anuais de US$ 2,5 bilhões.

Uma vantagem gritante da Argentina pós-moratória em relação ao Brasil diz respeito ao custo de rolagem da dívida. Depois da reestruturação de Kirchner, eles vão gastar 2,5% do PIB com juros, enquanto o Brasil ainda gasta mais de 7%. A carga fiscal representa 22% do PIB argentino; no Brasil ela já se aproxima de 40%. Virou ou não quase um país dos sonhos? A Argentina não é o primeiro caso de país em moratória que dá a volta por cima. A Rússia, que em 1998 deu calote em sua dívida, foi depois reclassificada pelas agências de risco como investment grade, um país de risco baixíssimo para os investidores. Para a economista Sheila Gaul, sócia da SR Rating, uma das principais empresas de avaliação de risco do Brasil, tudo isso é natural. “O filme da Argentina começou com uma explosão, seguida de uma forte recuperação; no filme brasileiro, com esses juros e impostos, o espectador sabe que haverá uma morte dolorosa no final”, afirma.

Há uma corrente de analistas que ainda aposta que os argentinos pagarão uma conta pesada a médio e longo prazos. “Uma situação pós-calote é parecida com a do Brasil depois do Plano Collor; os problemas só aparecem depois”, avalia Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. “É importante saber que taxa eles pagarão quando tiverem de buscar recursos novamente no mercado.” De qualquer forma, a odisséia de Kirchner é quase inversa à brasileira. Os críticos da opção argentina, ciclopes do mercado, dizem que um terrível castigo virá no futuro. São os mesmos que pregam que, se o governo brasileiro se comportar bem direitinho e fizer todo
o seu dever de casa, o País terá a recompensa da Terra Prometida e dos juros baixos. Também no futuro.

81,8 bilhões é a dívida Argentina renegociada, que obteve um desconto de 75%

Leonardo Attuch
Istoé Dinheiro, 09/03/2005

Retornar ao índice

ATUALIZADO EM 28//06/2016