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  Geografia Geral e do Brasil

É POSSÍVEL DERROTAR O CAPITAL GLOBAL?

Os símbolos do capitalismo multinacional estão em todos os lugares: McDonald e Burguer King, Ford e General Motors, Shell e BP, Coca-Cola e Pepsi, Starbucks e Aroma, IBM e Microsoft. De fato, pense em qualquer indústria e invariavelmente haverá um punhado de companhias que possui e controla grandes porções dos mercados no mundo todo. Uma das razões principais por trás do fato de que recentes protestos terminaram com o quebra-quebra de uma lanchonete McDonald, uma sala de exposição da BMW ou uma casa de café Starbucks, é porque representam as poderosas multinacionais que impõem as suas políticas e práticas, arruínam as vidas de pessoas, destroem comunidades e causam danos ao meio ambiente.

Em parte estes símbolos se tornaram foco de oposição devido à quantidade enorme de dinheiro gasto em propaganda para promover marcas com as quais os consumidores podem identificar-se ­ um elemento crucial para as companhias que procuram capturar seções cada vez maiores do mercado mundial. Hoje, o gasto anual em propaganda nos EUA é calculado em 196,5 bilhões de dólares, enquanto o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU de 1998 diz que o gasto global com publicidade "ultrapassa em um terço o crescimento da economia mundial".

Algumas companhias controlam e dirigem enormes parcelas da economia mundial. Tomemos a produção de carros. No começo do século 20 nenhuma empresa possuía uma marca bem conhecida ou uma cadeia nacional de revendedoras. Cada uma delas estava limitada a uma pequena região geográfica.

Em 1909 nos EUA só havia 274 companhias que fabricavam pequenas quantidades de carros a um preço extremamente alto - principalmente como joguetes para ricos. Hoje o quadro é diferente. As dez principais corporações respondem por 76% da produção global (sendo que as cinco maiores respondem por 50%). As rendas combinadas da General Motors e da Ford excedem o Produto Nacional Bruto de toda a África sub-saariana.Calcula-se que as multinacionais de automóveis sejam diretamente responsáveis pelo emprego direto de mais de 20 milhões de pessoas, e muitas vezes mais em indústrias associadas. Hoje a situação de um governo pode ser decidida por decisões tomadas nas reuniões de cúpula de algumas destas indústrias - como ficou demonstrado pela recente decisão da BMW de liquidar a Rover na Grã- Bretanha.

Outras indústrias mostram uma concentração semelhante de propriedade e de controle. Atualmente duas corporações respondem por 80 % da produção global de café, quatro corporações controlam 87% da indústria de tabaco do mundo, e duas corporações - Boeing e Airbus ­ são responsáveis por 95% da produção de aeronaves civis. Da mesma forma que o capitalismo progrediu e se transformou ao longo do século 20, surgiram novas companhias que mal haviam surgido algumas décadas antes. McDonald é um nome familiar em praticamente todas os países e grandes cidades ao redor do mundo e, no entanto, há apenas duas décadas era um nome praticamente desconhecido fora dos EUA.

As 200 maiores empresas do mundo controlam agora mais de um quarto da atividade econômica mundial. Entre as 100 maiores o aumento em recursos totais foi fenomenal. Em 1980 esses recursos equivaliam a 0,5 trilhão de dólares. Em 1995 haviam crescido para 4,2 trilhões. Das 100 maiores economias do mundo, 51 são agora corporações globais e só 49 são países. Por exemplo, a 'economia' da WalMart, multinacional de alimentos e comércio varejista que recentemente adquiriu a Asda na Inglaterra, é agora maior que 161 países, incluindo Israel, Polônia e Grécia. A General Motors é maior que a Dinamarca, a Ford é maior que a África do Sul. Descritas pelas Nações Unidas como 'o núcleo produtivo da economia mundial globalizada', estas poucas centenas de multinacionais respondem pela maior parte da capacidade industrial, conhecimento técnico (as corporações multinacionais possuem 90% de toda as patentes de tecnologia e produtos do mundo) e transações financeiras do mundo.

 

Influência política e econômica

Uma companhia pode dominar toda uma economia. A gigante japonesa Mitsubishi possui uma atividade econômica combinada que a torna economicamente maior que a quarta nação mais populosa do planeta, a Indonésia. Há mais de 160 companhias diferentes que compõem o grupo Mitsubishi, fabricando desde palitos chineses (hashis) a foguetes espaciais. A sua renda anual total excede 175 bilhões de dólares. O Banco Mitsubishi é um dos maiores do mundo, com recursos de 820 bilhões de dólares. As empresas Mitsubishi Motors e a Mitsubishi Chemicals estão entre as dez maiores em seus respectivos setores. As Indústrias Pesadas Mitsubishi são a número um do Japão em fabricação de navios e foguetes, em construção de plantas de suprimento de gás, petróleo, carvão e energia nuclear, e de produção de maquinaria pesada. Calcula-se que o braço do setor alimentício, a Mitsubishi Foods, provê indiretamente alimentos para cerca de um quarto de toda a população japonesa, rovavelmente "empurrados" por uma bebida da Kirin Brewery ­ parte do conglomerado Mitsubishi e quarta maior cervejaria do mundo.

Não é de admirar, portanto, que as corporações exerçam uma influência política e econômica tão grande. Hoje os interesses da maior parte dos governos mais poderosos do mundo estão intimamente entrelaçados com os seus interesses. Tornou-se lugar comum acreditar que essas multinacionais acabaram por tomar o papel do Estado, substituíram os poderes dos governos e agora regem o mundo. 'Globalização' se tornou o modismo dos anos noventa. Em um livro recente, On the Edge (editado por Will Hutton e Anthony Giddens), Robert Kutter argumenta, "Na medida em que o poder econômico [das multinacionais] cresce, também cresce o seu alcance político e intelectual, às custas do Estado-nação que uma vez equilibrou o seu poder econômico privado com as metas públicas e políticas de estabilização nacional. O próprio sucesso econômico das corporações globais é assumido como prova de que a sua visão de mundo deve estar correta: que o laissez-faire global é o modo ótimo para organizar uma economia moderna". A conclusão política de que as multinacionais podem vagar o mundo ao seu bel prazer esteve presente na resposta do Partido Trabalhista à ameaça da BMW de fechar a Rover. Não há nada que nós possamos fazer para resistir aos mecanismos do mercado, proclamou Tony Blair.

No entanto será o caso de que as multinacionais sejam tão grandes e poderosas que podem simplesmente ditar a política aos governos? Se isso for verdade, terá importantes implicações para os socialistas ­ pois o poder agora se distanciaria ainda mais do processo democrático, para uma situação de completa impossibilidade de controle e de responsabilização das multinacionais, proporcionando-lhes rédea livre para movimentar-se, controlar e explorar o mundo à vontade. Qual é, afinal, a verdade sobre o poder das multinacionais?

 

Confinados em fronteiras nacionais

A internacionalização da produção e da atividade econômica não é algo novo. Alguns produtos tiveram um caráter internacional durante séculos - por exemplo, comestíveis, especiarias ou mercadorias exóticas. Tal internacionalização foi ampliada pela expansão da industrialização a partir do século 18 na Europa. Não obstante, até bem recentemente o processo de produção era organizado principalmente dentro de limites nacionais. Grandes companhias existiram em dias idos - Coca-cola, Johnson e Johnson, Kodak, General Eletric, Goodyear, Reebok e PepsiCo, estavam todas formadas já ao término do século 19, e em um curto período de tempo começaram a dominar os seus respectivos mercados. Mas o que distingue as empresas gigantes de então do que nós presenciamos hoje é que elas se concentravam principalmente dentro dos seus próprios Estados nacionais. As primeiras multinacionais tendiam ou à extração de matérias-primas do Terceiro Mundo para manufaturá-las no Ocidente (como a Unilever ou as companhias de petróleo), ou à propriedade de subsidiárias estrangeiras voltadas completamente à produção local (como a Ford). Isto começou a mudar no período após a II Guerra Mundial com a emergência de novos padrões de produção. As empresas mais prósperas começaram a trabalhar o desenvolvimento, a produção e as estratégias comerciais em escala internacional.

A força motriz, em parte, foi a necessidade das companhias de procurar mais lucros ao redor do mundo, e em parte um esforço consciente das grandes potências capitalistas - particularmente para abrir e liberalizar o mercado mundial. Em seguida à II Guerra Mundial, e com os EUA dominante na economia mundial, uma série de passos foram tomados com o objetivo de reorganizar o sistema comercial mundial. O governo norte-americano conduziu um movimento coordenado para cortar tarifas e liberalizar economias ao longo do mundo.

Foram promovidas instituições transnacionais novas como o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e as Nações Unidas. O governo dos EUA abriu o seu próprio mercado, o qual se tornou o mercado de destino mais rico para as exportações de outros países. O governo também prestou assistência às companhias norte-americanas - com milhões de dólares na forma de subsídios para impostos e contratos diretos - para se expandirem e conquistarem novos mercados.

Assim, a IBM - com a ajuda do exército dos EUA - foi capaz de avanços enormes na produção de computadores durante os anos sessenta; a Ford e a GM começaram a falar sobre um 'carro mundial' durante os anos setenta; e a Boeing - novamente com ajuda do exército - começou a dominar a produção de aeronaves, forçando as empresas aeroespaciais européias a agruparem os seus recursos e a cogitar a construção do Airbus durante os anos setenta. Uma vez que o processo de internacionalização da produção estava em andamento, nada pôde Pará-lo - fusões e aquisições de empresas tornaram-se comuns para que as companhias sobrevivessem e crescessem. Porém, nem sempre foi um movimento ascendente. O destino das companhias também estava vinculado ao ciclo de expansão e de crise do capitalismo. Uma das maiores companhias aéreas do mundo, Pan Am, faliu nos anos oitenta, e não fosse pela intervenção estatal do governo norte-americano, a gigante multinacional automobilística, Chrysler, poderia ter sofrido um destino semelhante durante a década de 80. A saúde das companhias que sobreviveram dependeu da sua capacidade de aumentar as suas operações e a produção internacionalmente. Ao final dos anos oitenta dificilmente havia um setor industrial no qual as empresas não tivessem que trabalhar com uma estratégia internacional baseada em pesquisas conjuntas e em alianças com outras empresas e Estados. O dia das imensas corporações multinacionais havia chegado.

Até a II Guerra Mundial a produção e o comércio globais foram dominados pelos antigos países estabelecidos no centro do sistema, os países do noroeste europeu e os EUA, e a produção industrial permanecia concentrada nesse núcleo industrializado. Antes da guerra 71 % da produção industrial mundial total estava concentrada em apenas quatro países e quase 90 % em apenas 11 países. O Japão produzia apenas 3,5 % do total mundial. É verdade que a natureza do capitalismo mudou radicalmente desde os anos 1940 ­ o Japão emergiu como um participante-chave da economia mundial, o setor de serviços se expandiu enormemente e se tornou uma parte crucial da economia mundial. Mas se nos fixarmos na concentração da produção e dos serviços, veremos que ainda persiste um domínio semelhante de algumas regiões-chave.

A esmagadora maioria da produção mundial ainda se concentra em um número relativamente pequeno de países. No final dos anos 90 quatro quintos da produção manufatureira mundial estavam localizados na América do Norte, na Europa ocidental e Japão, com três países ­ os EUA, o Japão e a Alemanha - responsáveis por 60 % do total. No setor de serviços, as companhias multinacionais ainda estão concentradas no seu Estado de origem, e a maior parte dos seus lucros deriva daí. Das 45.000 multinacionais "matrizes" calculadas no mundo, cerca de 37.000 estão baseadas em seus Estados de origem nos 14 países mais desenvolvidos da OECD. O Estado ainda cumpre um papel importante no futuro das

multinacionais. A indústria aeroviária é um caso ilustrativo. Uma das indústrias mais importantes e lucrativas no mundo, as companhias estão ligadas de modo intrincado aos Estados nos quais estão baseadas e dos quais emergiram.

Apesar das alianças mais íntimas que se desenvolveram entre as principais

companhias aéreas durante a última década, este vínculo entre Estado e empresas ainda domina a indústria, e coloca limites reais na capacidade das companhias em realizar fusões e assumir o controle de outras companhias.

O sistema atual data de mais de meio século, em 1944, quando foi firmado um acordo em Chicago, no qual os líderes aliados tentaram delinear a forma a ser tomada pela aviação mundial após a II Guerra Mundial. O acordo é uma rede densa de acordos bilaterais. Mas isso está criando tensões políticas e econômicas na medida em que se intensificam os problemas de competição e as maiores empresas tentam abocanhar seções maiores do mercado mundial.

Donald Carty, presidente da American Airlines, declarou: " Hoje o que está dirigindo a economia do mundo é o livre movimento de capital e de idéias.

Infelizmente quando se trata da aviação uma boa parte do mundo permanece

governado por acordos bilaterais restritivos e antiquados." O tratado ainda exige que as empresas aéreas sejam possuídas majoritariamente por nativos dos países nos quais elas estão baseadas. Os governos da União européia tem legislado para assegurar que todas as linhas aéreas sejam protegidas por um teto de 49 % que limite a propriedade a investidores de fora da União. E no bastião do livre mercado, os EUA, o governo é igualmente protecionista ­ a

propriedade estrangeira é limitada a 25 % e os serviços internos são reservados somente para empresas norte-americanas. Disso resultam tensões enormes entre as empresas rivais, na medida em que buscam mercados maiores para si - tal como nós temos presenciado durante anos entre as companhias British Airways e a Virgin, por exemplo. Mas as tensões também se expressam politicamente como atritos entre Estados rivais lutando pelos interesses de

'suas' empresas ­ daí os problemas crescentes entre os EUA e a Inglaterra quando as conversações em janeiro passado sobre o acesso aos seus respectivos mercados terminaram fracassando de forma acrimoniosa, exigindo a intervenção de Bill Clinton e Tony Blair.

Intervenções estatais semelhantes ocorrem na indústria de defesa, fortemente dependente de apoio governamental. Obviamente, os governos empreendem guerras, mas também protegem os interesses das empresas de defesa. Na Inglaterra a indústria armamentista e o governo estão indissoluvelmente unidos. A 'Garantia de Crédito de Exportação' significa efetivamente que o contribuinte britânico subscreve as exportações de armas. De modo semelhante, nos EUA os dois maiores fabricantes de armas, Lockheed Martin e Boeing, tem sido os partidários mais entusiásticos da expansão da OTAN. De acordo com a revista norte-americana

Multinacional Monitor , "a expansão da OTAN poderia pavimentar o caminho para a criação de um novo e gigantesco escoadouro subsidiado para os armamentos norte-americanos,

incluindo de 8 a 10 bilhões de dólares em vendas de aviões de combate e um mercado total de armas de 35 bilhões de dólares durante a próxima década." A região do leste europeu e da Europa central é visto como um dos pontos 'luminosos' para os fabricantes de armas dos EUA.

 

Intervenção Estatal

Os vínculos entre as multinacionais e os governos funcionam de vários modos. Quando a OTAN se reuniu no seu qüinquagésimo aniversário, durante o ano passado, uma dúzia de companhias contribuíram com 250.000 dólares cada para ter os seus principais executivos servindo como diretores em vários comitês de recepção para a conferência de cúpula da OTAN. O patrocínio das corporações também foi uma característica da reunião de cúpula da OMC em Seattle no ano passado. Companhias como a Ford, GM, Microsoft, Boeing, e

Deloitte e Touche, todas contribuíram com mais de 250.000 dólares cada, o que lhes deu o direito de enviar cinco convidados às recepções de abertura e de desfecho da OMC. Na Inglaterra sempre que um membro da família real faz uma viagem ao exterior, são acompanhados por dirigentes da indústria e por figuras importantes da direção da CBI (Confederação das Indústrias Britânicas), com a embaixada britânica se transformando em uma feira de comércio para os interesses britânicos.

Porém, mais importante é o modo pelo qual o Estado opera para impulsionar e salvar empresas quando estas enfrentam dificuldade. Tal foi o caso das empresas de aço britânicas, francesas e italianas nos anos oitenta; da Chrysler nos anos oitenta que foi salva efetivamente pelo governo dos EUA; a intervenção do governo sueco em 1993, que apoiou dois dos maiores bancos da Suécia, os quais possuíam grande participação acionária na Volvo, Electrolux e Erricson; o resgate dos capitais conduzido pelo governo dos EUA durante a crise asiática de 1998; a intervenção pelo governo japonês na forma de volumosas reduções de imposto para empresas e dando dinheiro aos consumidores para impulsionar a economia.

Dessa forma, os governos ainda cumprem um papel crucial no funcionamento cotidiano das enormes empresas, como também no funcionamento geral do sistema. Em um aspecto isto é central às necessidades das multinacionais. Nenhum capitalista quer enfrentar sozinho um duro mundo de competição desregulada entre empresas gigantes. Os capitalistas precisam de subsídios, de mão-de-obra e infra-estrutura, de pessoal e ajuda. Assim, os capitais sempre se voltarão para o Estado em busca de apoio. E ainda existe uma forte sobreposição de interesses entre os que possuem e controlam os capitais produtivo, comercial e financeiro, e os que dirigem e controlam o Estado. Além disso, embora o sistema sempre tenha sido internacional, e as empresas sempre busquem os Estados mais lucrativos, isto não significa que sejam 'livres e descompromissadas' para poderem abandonar os locais a qualquer momento, e nem significa que sempre possam mudar para onde o trabalho seja mais barato. As corporações ainda estão atadas indissoluvelmente aos 'seus' Estados nos quais se apóiam. A relação entre o Estado e o grande capital não desapareceu ou definhou sob o impacto do capitalismo multinacional, mas foi elevado a um patamar diferente. A empresa multinacional não terminou o seu vínculo com o Estado, mas multiplicou o número de Estados aos quais está vinculada. Assim, nós vivemos em um mundo no qual as tensões entre as empresas têm se intensificado, e isso envolve os Estados aos quais elas pertencem. Freqüentemente isto se expressa em duras negociações sobre políticas governamentais e tratados (como o projeto da União Européia durante os últimos anos), mas também pode desembocar em conflito militar (como a Guerra dos Bálcãs e a necessidade da OTAN em expandir-se para o leste). Não é nenhuma coincidência que o período da história que tem presenciado a maior concentração de capital também seja o tempo em que o poder militar dos Estados nunca esteve tão grande. A descrição de Marx da classe dominante como um bando 'de irmãos hostis' soa mais verdadeiro hoje do que quando foi escrito durante o século 19.

O capitalismo multinacional, portanto, torna o sistema mais instável hoje do que era há 20 ou 30 anos. Isto funciona de vários modos. Em primeiro lugar, o tamanho mesmo das corporações implica que se uma delas fosse à bancarrota poderia arrastar o sistema inteiro em uma crise profunda e longa. Um das razões pelas quais o governo japonês injetou bilhões de dólares em sua economia durante os últimos cinco anos é que caso uma multinacional como a

Mitsubishi falisse, as conseqüências seriam desastrosas para a economia japonesa. Em segundo lugar, paralelamente ao crescimento do capital ocorre uma intensificação da competição. As ações do governo dos EUA no sentido de dividir o império da gigante Microsoft vinculam-se ao fato de que o próprio monopólio da Microsoft na indústria de computadores está restringindo a capacidade das outras empresas do ramo em desenvolver e se expandir. Mas ao

agir contra a Microsoft, o governo dos EUA criou problemas reais - o fato de que o preço dasações da Microsoft caiu 45 % durante o processo judicial poderia afetar investimentos futuros e, como o Wall Street Journal advertiu recentemente, poderia colocar riscos às companhias 'ponto.com' que neste momento vivem uma situação precária.

Finalmente, o próprio tamanho e a influência das multinacionais aumentaram em muito o poder dos que trabalham para elas. Em parte isto se deve aos métodos de produção que as multinacionais são forçadas a introduzir para aumentar a sua rentabilidade em um mercado cada vez mais competitivo. A produção 'just in time', por um lado, aumenta a rentabilidade impedindo que o capital se torne 'inativo', mas também aumenta o poder dos trabalhadores - uma greve em uma planta pode incapacitar as operações de toda a multinacional em um período curto de tempo.

Isso foi vividamente ilustrado em 1998 quando 9.200 trabalhadores da indústria automobilística entraram em greve em Flint, Michigan, para protestar contra a decisão da GM de enviar trabalho para fornecedores de fora nos EUA e México. A greve fechou 27 das 29 plantas de montagem da GM norte-americana, levando a GM a dispensar 192.000 trabalhadores. Ao final da greve estes 9.200 trabalhadores haviam custado à companhia mais de 2 bilhões de dólares em produção perdida e a administração da GM foi forçada a recuar em

várias demandas chaves. Tal poder também foi evidente no começo deste ano na greve dos trabalhadores da administração e da produção técnica da Boeing. Tal é a intensidade da concorrência entre os fabricantes de aeronaves, e tão rígidos são os horários de produção, que a greve de seis semanas significou para a Boeing a perda do prazo final para a entrega de 15 aviões, custando à companhia milhões de dólares e possíveis ordens futuras. Não admira então que os patrões foram forçados a conceder praticamente todas as reivindicações exigidas pelos trabalhadores em um espaço curto de tempo.

O poder internacional dos trabalhadores está indissoluvelmente vinculado ao sistema internacional de produção. Quando 125.000 portuários na Índia entraram em greve em janeiro deste ano, eles fecharam os principais portos de Bombaim e Calcutá, e forçaram o exército e a marinha a intervir, interrompendo as principais rotas de comércio do sudeste asiático, deixando

muitos navios parados, obrigando-os a lançar produtos ao mar. É este o poder que o capital multinacional não pode conter. E quanto mais procura se expandir e abrir mercados novos, mais problemas cria. Assim a decisão de admitir a China na OMC pode proporcionar maior acesso às multinacionais norte-americanas no gigantesco mercado chinês. Mas o Banco Mundial tem calculado que cerca de 35 % dos trabalhadores industriais da China enfrentam o risco de desemprego porque trabalham em indústrias que não podem competir com as multinacionais. Portanto, convulsões políticas e sociais são inevitáveis.

A classe trabalhadora mundial é muitíssimo maior e mais forte hoje do que em qualquer outro momento da história. Na medida em que as multinacionais se expandiram pelo globo terrestre, elas criaram uma classe trabalhadora mundial que possui cada vez mais um interesse comum. Também o nível de organização é maior do que nunca. Sindicatos poderosos existem agora em praticamente todos os países, em praticamente todos os setores de produção. É este poder que, em última instância, deterá o poder das multinacionais. Quando aqueles que produzem os lucros para estas enormes multinacionais vão à greve, eles não apenas podem danificar uma empresa gigante, mas podem trazer o sistema mundial inteiro em crise.

 

Peter Morgan
Socialist Review 243
julho/agosto de 2000
Tradução: Rui Polly

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ATUALIZADO EM 28//06/2016