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“NO” DE PABLO LARRAIN OU DE COMO PERDER VENCENDO

Há muito a ser falado deste “No” de Pablo Larrain. O filme tem como tema central a campanha pelo Não a Augusto Pinochet no plebiscito que decidiria sobre sua permanência no poder. A primeira coisa a ser observada é que o filme curiosamente tem sido atacado por seu maior acerto. Soa estranha por exemplo a desqualificação do crítico Inácio Araújo (e  ele não foi o único) por uma suposta apologia à publicidade. “No” não a defende nem a redime. Ao contrário demonstra que ao ser a única vitoriosa do plebiscito, a lógica da publicidade faz com que a disputa entre Sim e Não torne-se uma falsa escolha, rompendo com o ditador, mas não com a estrutura que o sustentava. Não há redenção possível, não há futuro, não há horizonte sem ruptura. Tal qual enunciado pelo bordão do publicitário protagonista que se repetirá ao longo do filme: “o que vocês verão agora está inserido no contexto social do Chile atual”. E é este contexto de imagens vazias, que torna o confronto entre o Sim ou Não uma disputa entre duas alternativas de futuro que são na verdade o mesmo.

O ano é de 1988. Pressionado internacionalmente o governo do ditador Augusto Pinochet resolve realizar um plebiscito para legitimar sua continuidade. Seus auxiliares acreditam que a bonança econômica e o apoio dos meios de comunicação desestabilizaria a oposição. Mas o que parecia uma disputa fácil torna-se uma imensa derrota ao ditador. “No” acompanha a vitoriosa campanha do não à continuidade de Pinochet. Apresenta de modo cuidadoso a forma como a publicidade contamina e captura o discurso político da oposição, o modo como o neo-liberalismo sobrevive a Pinochet, como este perverso legado se transmuta e contamina os resultados do plebiscito. O que está em jogo em “No” é que o jogo já fora perdido, independente do resultado. Pinochet ganhou porque a ideologia que sua ditadura impôs sobreviveu a ele e impregnou até mesmo a oposição. A discussão central do filme é justamente a mudança de eixo que se opera no discurso contra Pinochet – a liberdade para o Chile torna-se uma liberdade ilusória pois a campanha não mais se dá contra um sistema político e econômico perverso, mas a favor de uma forma de vivenciar a experiência do consumo. Trata-se de um enfrentamento de competências em oferecer imagens, a disputa por quem melhor manipula as escolhas já pré determinadas pela lógica do capital, representadas por um pretenso “universalismo” cafona e despersonalizado da publicidade (criticado no filme pelos poucos opositores que não se deixam seduzir e acabam excluídos da grande festa da “neo-democracia”).  Larrain nos dá o tempo todo pistas de que os dados já foram lançados: o apoio do ultra-conservador governo Reagan para o No!, o afastamento das tendências “esquerdistas”, o pagamento da memória do “passado” de Allende, o domínio da estética do american way of life, o abandono da caserna à Pinochet  e o fortalecimento dos “moderados” da democracia cristã. Tudo se opera em simultaneidade. Larrain não retrata apenas a ascensão da lógica publicitária e o eclipsamento da crítica e dos conflitos. Narra a forma como os discursos reais de rompimento e sua radicalidade vão sendo engolidos por esta lógica de apaziguamento e homogeneização conservadora.

Voltemos à narrativa do filme. Um jovem publicitário nascido no exílio, René Saavedra, (interpretado brilhantemente por Gael Garcia Bernal), de família militante, porém alienado politicamente e embotado pelas ideias “universalistas” da publicidade é convidado para assessorar a campanha contra Pinochet. Aos poucos ele impõe seu estilo e sua racionalidade publicitaria a políticos tarimbados e consegue afastar os mais “radicais”. É a publicidade e sua lógica que seleciona os políticos, que homogeneíza a oposição, que exclui quadros à esquerda e que mostra o que deve ou não ser discutido. É ela quem define as pautas, pois para Saavedra é assim que funciona a contemporaneidade. É assim que opera o “Sim” e se queremos vencer precisamos jogar o jogo.  A democracia moderna não atua a partir de ideias, mas a partir do seu esvaziamento, ela opera a partir da sedução e do desejo. Trata-se de conseguir a vitória sobre Pinochet, não de refletir e romper com seu legado. É interessante acompanhar o incomodo do personagem de Bernal quando é abordado qualquer conflito político verdadeiro, quando alguma ideia de fato “escapa” em meio à campanha. Como se o próprio ato de fazer pensar pudesse desmascarar toda sua lógica.
Um discurso recorrente no filme é o de que a juventude não quer saber de passado, mas sim da promessa de felicidade do presente. Saavedra repete ao longo do filme o bordão: ““o que vocês verão agora está inserido no contexto social do Chile atual”. É como se a única liberdade a ser conquistada fosse a liberdade do consumo, a política como uma escolha de produto. Temos Si ou No, Coca cola ou pepsi, Brahma ou Antartica. A memória não está em disputa se temos um novo consenso. E eis que todos unidos podemos enterrar o passado, abraçados e sorridentes, como em uma propaganda de margarina. Os mesmos nomes, a mesma lógica, as mesmas imagens eternizam-se no pesadelo da continuidade que não se mostra. Vale lembrar que o “antagonista” de Saavedra no filme é o seu publicitário “chefe”, envolvido até a medula com a ditadura, sendo o principal mentor da campanha do Sim. A posição antagônica porém não implica nenhum rompimento, pelo contrário. Ao final vemos como a vitória é celebrada pelos dois publicitários, o novo sendo o velho com embalagem reciclada. A farsa democrática mantêm-se com os mesmos velhos aliados da ditadura, buscando uma nova roupagem para inserir-se com tranquilidade no “contexto social do Chile atual”.

Em bela crítica ao  filme na revista Cinética Victor Guimarães lembra que “a liberdade que se anuncia no horizonte da história chilena só pode se situar no rótulo de um novo refrigerante –, o gesto de Larraín é forte, e já afirma tudo o que falta à maioria dos “filmes históricos”: a integridade de um olhar (…).Larraín decide aderir inteiramente a uma textura videográfica oitentista, filmando em U-matic e produzindo imagens saturadas, com iluminação irregular e enquadramentos instáveis. Aderir imageticamente aos arquivos (e aqui temos um dos paradoxos mais estimulantes do filme) não é investir em uma pretensa “veracidade histórica”, mas justamente o contrário; contaminar todo o filme com a expressividade da televisão é fazer de suas imagens uma instância frágil, igualmente duvidosa, não definitiva.” Não estaria portanto Larrain, ao abraçar esta estética como realidade do filme, explicitando sua visão do No! como a farsa conteporânea que se se segue à tragédia do golpe? O presente como uma continuidade de mau gosto da realidade econômico e social do Chile de Pinochet? Ao apontar a continuidade da lógica neo-liberal a partir do discurso publicitáro Larrain faz um filme de vital importância não só pelo que diz,  mas pelo que deixa em aberto em seu subtexto pessimista, a ironia amarga que nos deixa em sua conclusão. No! incomoda porque ao abordar a partir da publicidade o fim da ditadura Pinochet, demonstra de modo perspicaz como a vitória do consenso tornou-se no Chile o enterro do dissenso.

No final do filme, em meio à festa da “volta da democracia” um único personagem parece melancólico. É o publicitário, aquele que não pode escapar do óbvio, não haverá mudança. “No” é o retrato de uma vitória amarga. A vitória consentida pelo capital, pois Pinochets tornaram-se descartáveis na era da ditadura da imagem, sendo a liberdade mediada pelo consumo muito mais eficaz. É o que vemos na cena em que Bernal segue seu cotidiano de reificação do discurso publicitário junto à uma grande TV do Chile que até então apoiara a ditadura. Nada muda. A mesma estética. As mesmas imagens desgastadas e corrompidas de uma pretensa modernidade. Hoje estão todos sempre a olhar o futuro, tal qual cavalo com antolhos. Aí está a grande questão que nos deixa Larrain, o que diferencia este filme de todos os feitos até então sobre os anos de ditadura civil-militar latino-americana. Se levado a sério “No” nos deixa uma deprimente constatação de fim de linha, de vitória sem oposição do neo-liberalismo no Chile (e porque não no Brasil?), o fim de uma época de lutas, celebrada publicitariamente em uma ode cínica ao presente eterno. Diante deste quadro não é possível ficar calado. Não basta constatá-lo, é preciso combatê-lo. Será o cinema uma arma possível para este embate simbólico?

Thiago Mendonça,
21 de janeiro de 2013-07-15
Revista Zagaia. Disponível em < http://zagaiaemrevista.com.br/no-de-pablo-larrain-ou-de-como-perder-vencendo/>

 

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ATUALIZADO EM 28//06/2016