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  Geografia Geral e do Brasil

A NOVA ERA DOS IMPÉRIOS

Uma ofensiva insensata muda o panorama da geopolítica mundial.

O presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, pode não se parecer com Saddam Hussein ou com o general Leopoldo Galtieri e foi eleito democraticamente, mesmo que seus métodos sejam tão autocráticos quanto os do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin. Mas cometeu erro semelhante: apostou na simpatia dos EUA para se lançar em uma aventura militar. Ainda mais perigosa que a invasão do Kuwait ou a Guerra das Malvinas, dada a imensa desproporção de recursos: mais de 20 soldados, 60 blindados e 80 aviões e helicópteros russos para cada equivalente georgiano.

Há quem pense que os EUA deram à Geórgia um sinal verde explícito, como sugeriu o embaixador russo nas Nações Unidas – suspeita, aliás, também despertada pela invasão iraquiana do Kuwait. Condoleezza Rice foi a Tbilisi em 9 de julho, assegurar o apoio dos EUA ao país na disputa pela Ossétia do Sul e a Abcázia: “Nós sempre lutamos por nossos amigos”. Terá dito algo mais preciso a Saakashvili, em particular? Se não, certo está Putin, que o chamou de “lunático”. Não se criam fatos consumados contra uma grande potência.

De qualquer maneira, aos 53 minutos da madrugada de 8 de agosto, enquanto o mundo assistia à abertura dos Jogos Olímpicos, a Geórgia iniciava a invasão da Ossétia. Foi de Pequim que Putin ordenou a previsível retaliação.

Desde a Antiguidade, o Cáucaso é refúgio de povos acuados pelas reviravoltas da história. É o caso dos alanos, tribo sármata das estepes tida como descendente dos massagetas, cuja rainha Tomíris, segundo Heródoto, derrotou e matou Ciro, o Grande. Invadidos pelos hunos no final da Idade Antiga, alguns alanos fugiram, juntaram-se a vândalos e suevos na conquista da Gália, Ibéria e África romanas até se diluírem entre os povos dessas regiões. Outros permaneceram no sul da Rússia, sob domínio dos hunos, depois dos cazares, depois como reino independente, destruído pela invasão mongol do século XIII.

Os sobreviventes, conhecidos como ossetas, refugiaram-se nas vertentes norte e sul do Cáucaso, hoje fronteira entre a Rússia e a Geórgia. A Ossétia do Norte passou ao domínio russo em 1767. Em 1801, também a Geórgia, fraca demais para manter a independência conquistada ao Irã em 1747, foi incorporada ao Império Russo, trazendo consigo a Ossétia do Sul.
No período soviético, o norte tornou-se república autônoma dentro da Rússia e o sul, província autônoma da Geórgia, mantendo sua identidade étnica e lingüística. O regime soviético favoreceu as pequenas minorias étnicas fiéis – como ossetas e abcazes – para ajudar a manter sob controle os maiores – como os georgianos –, cuja rebeldia seria mais perigosa.

A Abcázia, principado independente de um antigo povo norte-caucasiano não relacionado aos georgianos, foi incorporada ao império russo no século XIX e pertenceu por algum tempo à URSS em pé de igualdade com a Geórgia, até Stalin incorporá-la a esta como república autônoma.

A decadência do Kremlin gerou a crise. Em 1989, a Geórgia, tomada de euforia nacionalista, entendeu de impor o uso de sua língua e “georgizar” todo o seu território multiétnico. A Ossétia do Sul protestou, fez do osseta língua oficial e reivindicou promoção de província à república autônoma.

Tbilisi respondeu proibindo os partidos regionais. A Ossétia do Sul e a Abcázia constataram que a arrogância dos pequenos pode ser pior que a dos grandes e pediram a separação e o estatuto de repúblicas da URSS. A Geórgia reagiu abolindo a Ossétia do Sul como entidade territorial e dividindo-a entre outras províncias do país. As tentativas de mediação de Gorbachev foram inúteis e o líder sul-osseta foi preso pelos georgianos ao chegar a Tbilisi para negociar.

No final de 1991, ao desmoronar a URSS, a Geórgia apressou-se em procurar a proteção do Ocidente, enquanto a Abcázia proclamava a independência e a Ossétia do Sul a união com a Ossétia do Norte e a Rússia. Esta, apesar de reprimir brutalmente a tentativa da Chechênia de passar de república autônoma a nação independente, aceita bem o estatuto autônomo da Ossétia do Norte: é grande o suficiente para respeitar minorias que aceitam sua proteção.

A Geórgia tentou “restabelecer a ordem” nos territórios rebeldes, com algum sucesso inicial, mas ossetas e abcazes obtiveram apoio e armas dos russos e de etnias vizinhas do norte do Cáucaso.

Tbilisi submeteu um terceiro enclave étnico – a Ajária, georgiana na língua, mas em boa parte muçulmana, que fica na fronteira da Turquia. Mas a maior parte da Ossétia do Sul e da Abcázia havia voltado ao controle dos autonomistas quando do cessar-fogo de 1992, patrocinado pela ONU e garantido por tropas russas, depois de 10 mil mortos e 300 mil refugiados de ambos os lados.

Ambas tornaram-se, na prática, protetorados da Rússia, da qual seus cidadãos (poucos dos quais são etnicamente russos) recebem passaportes, pois seus governos não são reconhecidos no exterior. Mas a situação acalmou-se, apesar de o governo georgiano do ex-chanceler soviético Eduard Shevardnadze se esforçar por conquistar o coração de Washington e um título de sócio da Otan a ponto de participar da “coalizão” anglo-americana no Iraque.

Em 2003, Shevardnadze, acusado de corrupção e fraude eleitoral, foi derrubado por um movimento apoiado por Washington e liderado pelo ainda mais neoliberal e pró-ocidental Saakashvili, que venceu a eleição seguinte com 96% dos votos. A Geórgia aumentou sua presença no Iraque de 800 para 2 mil homens. Recebeu mais de cem assessores militares do Pentágono e tornou-se a quarta maior receptora de ajuda financeira e militar dos EUA, depois de Israel, Egito e Colômbia.

O novo presidente tinha como “objetivo de vida” a reconquista dos territórios perdidos. Com o passar do tempo e o declínio de sua popularidade – constatada na eleição de janeiro de 2008, vencida com certa dificuldade (na qual abusou da máquina estatal, segundo observadores internacionais, e de fraude, segundo a oposição) agitou essa bandeira cada vez com mais ênfase.

Em 8 de agosto, a artilharia georgiana bombardeou indiscriminadamente Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul, destruindo blocos de apartamentos, a universidade e um hospital, sob cujas ruínas 150 pessoas foram soterradas. Segundo fontes ossetas e russas, cerca de 1,6 mil civis foram mortos, além de uma dúzia de soldados russos. Trinta mil refugiados se dirigiram para a Rússia sob fogo inimigo.
Antes de o sol nascer, o governo da Geórgia anunciava ter recuperado a capital e dois terços do território. Uma provocação que a Rússia talvez aguardasse com impaciência. Certamente, estava muito mais preparada do que Saakashvili imaginava. Durante a manhã, os bombardeiros russos atacaram bases aéreas perto de Tbilisi e ao cair da noite os tanques russos chegavam aos escombros de Tskhinvali. No dia seguinte, a Abcázia atacou a Geórgia para recuperar territórios mantidos por Tbilisi desde a paz de 1992.

Saakashvili pediu um cessar-fogo e o embaixador russo na Otan respondeu que só iniciaria negociações quando a Geórgia se retirasse às posições anteriores e prometesse nunca mais retomar o território. No dia seguinte, a Geórgia abandonava Tskhinvali. Segundo o embaixador de Washington na ONU, o chanceler russo Sergey Lavrov teria dito a Condoleezza que “Saakashvili tem de ir embora”. Seu par russo negou e respondeu que “mudança de regime é uma expressão estadunidense”.

Em 11 de agosto, os russos ignoraram a proposta entregue por Saakashvili a uma missão européia (que implicava a retirada das tropas russas) e prosseguiram a contra-ofensiva além dos territórios separatistas. Dividiram a Geórgia em duas ao chegar às portas de Gori, cidade natal de Stalin, no centro da Geórgia, por onde passam a estrada, a ferrovia e o oleoduto mais importantes do país (que leva petróleo do Cáspio ao Ocidente).

Todas as tropas e 80% dos civis de Gori fugiram a pé para a capital, a 64 quilômetros, abandonando pela estrada armas e veículos, alvos fáceis para os bombardeiros russos. Saakashvili “ordenou a retirada” já consumada e aumentou ainda mais o pânico ao anunciar, falsamente, que as tropas russas haviam ocupado Gori e estavam marchando para a capital – aparentemente, numa tentativa desesperada de provocar a intervenção dos EUA.

No dia seguinte, as tropas georgianas na Ossétia haviam se rendido ou fugido, os abcazes aparentemente recuperaram todos os seus territórios antes em mãos georgianas e os russos cessaram fogo sob as condições que quiseram, continuando a reforçar suas tropas na área.

Os 80 mil habitantes e 3.900 quilômetros quadrados da Ossétia do Sul, equivalem, digamos, aos do município goiano de Catalão, mas os cinco dias nos quais foram disputados significaram a primeira guerra entre nações européias desde 1945 e ditaram novas regras à geopolítica global.

A primeira lição é que aliança e amizade com o Ocidente não garantem proteção incondicional dentro da esfera de influência russa. A ser estudada, principalmente, pela Ucrânia, que durante o conflito chegou a “considerar seriamente” proibir o reabastecimento dos navios de Moscou nas bases da Criméia – por sinal, uma república autônoma etnicamente russa.

Esqueça-se “O Império”. Os impérios, no plural, estão de volta. Nem os EUA nem seus aliados na Europa Ocidental ousaram oferecer mais que apoio moral a seus amigos georgianos, que, além de sofrer bilhões de dólares em prejuízos e perder os fragmentos da Abcázia e Ossétia que retinham desde 1992, parecem ter ficado sem qualquer perspectiva de recuperar esses territórios.

Antes, durante e depois do conflito, os EUA e seus aliados na Europa insistiram em exigir respeito à integridade da Geórgia – mas tal cobrança perdera legitimidade desde que uns e outros abriram juntos, em fevereiro deste ano, o precedente de usar a força para dividir uma nação soberana sem aprovação das Nações Unidas. Se um e outros reconheceram unilateralmente o Kosovo, o governo russo sente-se hoje no direito de reconhecer os dois novos Estados no Cáucaso – a menos, talvez, que consiga um acordo favorável à Sérvia.

Caso contrário, esqueça-se de vez o direito internacional, já ridicularizado pelos EUA, Israel e até pela Colômbia. Como no imperialismo do século XIX, valem as regras e limites ditados pelas potências. O professor de direito Andreas Zimmermann, da Universidade de Kiel, entrevistado pela rede estatal alemã, esforçou-se por explicar que o Kosovo é diferente da Ossétia, mas o mais que pôde dizer é que o primeiro passou por “uma situação de genocídio”. Ante os milhares de ossetas mortos em 1992 e 2008 – proporcionalmente mais que os kosovares em 1998 –, equivale a dizer que só os EUA têm o direito de definir um genocídio. Mas a Rússia agora conquistou seu lugar entre os poderes capazes de escrever suas próprias regras.

A Rússia de Putin e do presidente Dmitri Medvedev sai fortalecida, com suas tropas estabelecidas dentro do antigo território da Geórgia para provavelmente não mais sair. Ao menos em sua vizinhança, parece agora mais importante estar em suas boas graças que nas de Washington. Irã, Síria e Coréia do Norte podem sentir-se mais confiantes, enquanto as ex-repúblicas soviéticas que se aproximaram da Otan podem reconsiderar seu jogo. O próprio governo Saakashvili talvez não sobreviva à humilhação e à percepção dos georgianos de terem sido abandonados por Washington e acabe substituído por outro mais simpático a Moscou, consolidando a vitória russa.

Os EUA perdem mais pontos no cenário mundial, após investirem bilhões e comprometerem seu prestígio com uma tentativa fracassada de isolar a Rússia por meio de aliados que não têm reais condições de proteger ou de controlar. Seu relacionamento com a Rússia deteriorou-se e passará provavelmente a ser mais agressivo. O mundo tornou-se mais perigoso.

Antonio Luiz M. C. Costa
Cara na Escola, setembro de 2008

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ATUALIZADO EM 28//06/2016