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  Geografia Geral e do Brasil

IRAQUE, TIBETE E O DISCURSO DA "MISSÃO CIVILIZATÓRIA"

Como os chineses, americanos ignoram história e culpam alvos por seu fracasso

Por que os Estados Unidos invadiram o Iraque?
Cinco anos depois, não há consenso sobre uma única motivação, embora observadores de diferentes matizes ideológicos apontem aqui e ali uma série de razões objetivas.

Entre elas, a força do lobby das empresas petrolíferas e o objetivo vital para os EUA de assegurar o acesso às reservas do Oriente Médio; o temor genuíno de que Saddam Hussein estivesse produzindo armas químicas ou biológicas que seriam usadas contra aliados americanos na região; o afã de completar o trabalho, inconcluso na Guerra do Golfo, de exterminar um ex-aliado incômodo; a influência dos demais lobbies, dos armamentos às empresas de "reconstrução".

Mas a decisão de ir à guerra não pode ser compreendida fora da situação histórica que deu origem ao acesso cego de "arrogância imperial" -expressão que pipocou nos Estados Unidos quando a invasão começou a dar errado e o país se deu conta de que o momento excepcional que havia vivido nos anos 90 já estava passando.

Hiperpotência
Como se sabe, os EUA entraram na última década do século 20 como a "hiperpotência" -palavra cunhada, não sem certo despeito, por um chanceler francês-, depois de sua vitória na Guerra Fria. No "momento unipolar", a influência americana cresceu sem obstáculos.

Nos dois mandatos do democrata Bill Clinton, a Otan e a União Européia foram ampliadas para o Leste Europeu e o Báltico, antiga esfera de influência soviética; a América Latina, livre da polarização da Guerra Fria, se democratizou e aderiu à "receita única" na economia; ditadores anticomunistas que tinham apoio americano, como o indonésio Suharto, puderam ser descartados sem maiores conseqüências; uma intervenção sem autorização da ONU contra a recalcitrante Sérvia foi no final julgada legítima; o próprio Iraque, sob embargo desde a guerra de 1991, nunca deixou de ser alvo de bombardeios "limitados".

A perspectiva, como dizia o projeto dos neoconservadores que viriam a formar o núcleo da diplomacia e da defesa no governo Bush, era a de um novo século americano. Mas, para isso -e lançando mão de conceitos que, na elite da política externa dos EUA, haviam sido forjados pela ala à esquerda-, era preciso acelerar a história, ampliar o "espaço liberal-democrático". Os que aderissem seriam sócios da nova ordem; os que resistissem seriam tratados como bárbaros.

Leninistas
O sociólogo Francis Fukuyama, que foi um dos apoiadores da invasão do Iraque, descreveu mais tarde esse grupo como os "leninistas" da direita, a vanguarda de uma revolução armada em nome do liberalismo.

Uma frase tardia que expressa bem essa disposição revolucionária coube à secretária de Estado Condoleezza Rice, quando disse que a guerra entre Israel e o Hizbollah em 2006 -com os EUA e o Irã como contendores em segundo plano- fazia parte das "dores do parto" de um novo Oriente Médio, à imagem da democracia americana.

Para além, então, de razões objetivas -que provavelmente levarão os EUA a permanecer no Iraque por bastante tempo-, a decisão de invadir foi embalada por esse clima, e potencializada, na opinião pública americana, pelo afã patriótico pós-11 de Setembro. Os alertas sobre as experiências precedentes dos colonialistas britânicos no Iraque foram ignorados ou não serviam como analogia, pois vivia-se, afinal, um novo tempo.

A partir de 2005, quando a situação no Iraque se tornou de fato sangrenta, o lamento que mais se ouvia nos Estados Unidos era o de que, sim, nós fizemos tudo o que era possível, mas os iraquianos não colaboram, eles não estão preparados para a democracia.

O país conheceu da pior maneira -e tarda a admiti-lo- uma realidade que é tanto do século 21 quanto dos séculos que o precederam desde a formação dos nacionalismos: as pessoas não querem pagar o preço de ser "libertadas" por outrem; se o aceitam, é quase sempre de maneira provisória.

Paixões e interesses
Nesse ponto, é notável a semelhança entre a experiência americana no Iraque e a chinesa no Tibete. Lá também os comunistas reivindicaram uma "missão civilizatória" contra a teocracia budista que, no período de independência, entre 1912 e 1950, mantinha a população em servidão, desconhecendo mesmo a chegada da modernidade capitalista.

Agora, com a explosão da revolta de uma nova geração de tibetanos, os chineses voltam a bradar contra os "ingratos" representantes do atraso. E provavelmente -como os EUA no Iraque- ali permanecerão em função de seus interesses.

Num artigo de 2004 para a "New York Review of Books", intitulado "Sonhos de Império", o historiador britânico Tony Judt escreveu que, mesmo que ficasse demonstrado que a hegemonia americana -ou chinesa, no caso tibetano- é boa para todo o mundo, "seus supostos beneficiários a rejeitariam".

Judt cita, a propósito, uma frase presciente do filósofo conservador -e realista- francês Raymond Aron: "É uma negação da experiência do nosso século [o 20, no caso] supor que os homens sacrificarão suas paixões por seus interesses". Parece valer para "libertadores" -mesmo quando proclamam agir em nome da razão- e para "libertados" igualmente.

Claudia Antunes
Folha de São Paulo, 23 de abril de 2008

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ATUALIZADO EM 28//06/2016