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  Geografia Geral e do Brasil

UM OÁSIS DO CAPITALISMO NA CORÉIA DO NORTE

Financiada por capital do sul e utilizando funcionários do norte, a zona econômica especial da Coréia do Norte é um oásis de prosperidade capitalista em um Estado totalitário. E, para a Coréia do Norte, isso é bom: o ditador norte-coreano Kim Jong Il necessita desesperadamente de moeda forte

O gerente que inspeciona as instalações da fábrica parece estar satisfeito com o que vê. Cerca de mil funcionárias sentam-se próximas umas das outras em frente às suas máquinas, costurando e colando tênis esportivos. O lugar cheira à borracha e à cola, e os alto-falantes reproduzem em um volume estridente músicas norte-coreanas: aparentemente os especialistas em propaganda do regime acreditam que ouvir música alta faz com que as mulheres trabalhem mais arduamente.

Kwoon Soon Jin é um dos gerentes da Stafild, uma fábrica de calçados que opera aqui na zona econômica especial de Kaesong, na Coréia do Norte, localizada a 70 quilômetros de Seul, a capital sul-coreana. Kwon veio da Coréia do Sul, e antes de assumir este emprego passou 11 anos gerenciando fábricas na China.

Segundo ele, algumas coisas são melhores na Coréia do Norte. Ele gosta das condições encontradas em Kaesong. Kwoon diz que os funcionários falam a sua língua e são mais disciplinados e trabalhadores do que os chineses. E, o mais importante de tudo, são muito baratos. O salário oficial desses trabalhadores equivale a US$ 57,50 por mês, o que é bem menos do que os salários chineses, e apenas um décimo do que ganha um sul-coreano para executar a mesma tarefa.
As mulheres norte-coreanas que trabalham na fábrica de calçados tendem a comparar os seus salários com aqueles do seu país, o que faz com que Kaesong transmita a impressão de ser um campo de trabalhos forçados de luxo. Elas ganham três vezes mais do que os norte-coreanos que estão fora da zona especial. Porém, ninguém sabe exatamente com que fração do salário os trabalhadores de Kaesong têm permissão para ficar. Eles recebem uma parte dos salários na forma de cupons para a aquisição de produtos básicos de consumo.

As mulheres não podem falar com visitantes na fábrica. Elas vestem-se como figurantes de uma das diversas óperas revolucionárias que supostamente teriam sido escritas pelo próprio ditador Kim Jong Il. As mulheres usam uniformes azuis e uma quantidade parcimoniosa de batom vermelho.

A zona econômica especial de 330 hectares foi criada quatro anos atrás. O Grupo Hyundai opera na zona econômica, que fica a apenas 1,5 quilômetro da fronteira fortemente vigiada entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul. Um muro verde separa a zona do restante do reino de fome de Kim. Kaesong é um produto da economia de mercado, algo que o bizarro ditador Kim declarou ser uma obra do demônio - apesar do fato de a China, a sua grande protetora, ter adotado uma experiência em grande escala com esse tipo de economia.

Gerentes do sul, como Kwoon Soon Jim, administram as fábricas em Kaesong, trazendo com eles o capital, o equipamento e o conhecimento técnico necessários. A Coréia do Sul fornece até mesmo a eletricidade - por meio de uma linha de transmissão que corta o paralelo 38 (o paralelo que demarca a fronteira entre as duas Coréias). O Grupo Hyundai paga vários milhões de dólares em taxas, o que se constitui em um apoio financeiro muito bem recebido por Kim. Aqui, 27 companhias sul-coreanas fabricam produtos baratos, incluindo relógios, bijuterias, roupas e calçados.

Cerca de 20 mil funcionários, homens e mulheres, entram diariamente nesta zona comercial, vindos de Kaesong, a quinta maior cidade do país. Sob a supervisão de 500 sul-coreanos, eles geram as moedas fortes das quais a Coréia do Norte necessita desesperadamente.

A zona econômica especial é considerada um exemplo bem-sucedido de cooperação entre as duas Coréias. O déspota norte-coreano, com os seus sapatos de salto alto e cabelo eriçado, vê nesta iniciativa uma maneira de salvar o seu regime da ruína. O sul rico tem objetivos similares. Seul deseja prevenir o norte de entrar em colapso ou implodir, e demonstra ansiedade em relação aos resultados imprevisíveis de um possível êxodo maciço ou mesmo de uma guerra civil.

A fim de evitar colocar em risco a sua própria prosperidade, Seul está tentando melhorar o padrão de vida na Coréia do Norte, um país cujo produto interno bruto equivale a apenas 2% ou 3% do PIB sul-coreano. Caso a economia norte-coreana possa ser melhorada, isso faria com que aumentassem bastante as chances de uma possível reunificação dos dois países, que estão divididos desde 1945.

Este objetivo subjacente também faz de Kaesong um sinal do relaxamento das tensões políticas na península coreana. Existem planos para dobrar a área da zona econômica especial para 660 hectares em uma segunda fase. Além disso, Kaesong poderia em breve se agregar a vários outros grandes projetos patrióticos de construção no norte. O sul pretende investir cerca de US$ 55 bilhões na revitalização da infra-estrutura decrépita do norte, incluindo portos, estradas e ferrovias. Assim que essas obras forem concluídas, outras ilhas de capitalismo poderiam ser criadas na Coréia do Norte, juntando-se ao atual oásis econômico de Kaesong e ao paraíso de férias de Kumgangsan, na costa leste do país, que atrai turistas do sul.

Essas idéias têm circulado desde que o presidente sul-coreano, Roh Moo-hyun, viajou a Pyongyang no início de outubro para conversar com Kim. Entretanto, não se pode esquecer de que houve diversas ocasiões no passado nas quais as esperanças de que Kim permitisse um relaxamento das tensões e reformas no país desmoronaram tão logo surgiram.

Um exemplo foi a visita de Kim à zona econômica especial de Shenzhen, no sul da China, no início do ano passado. Shenzen é conhecida porque o ex-líder e reformista chinês Deng Xiaoping escolheu aquela região para ser o seu laboratório de ensaio de uma abertura da China ao capitalismo, uma experiência iniciada há apenas três décadas. Deng implementou o seu plano com grande cautela, em parte para evitar colocar em risco o papel dominante do Partido Comunista.

Mas, em vez de seguir o exemplo chinês, Kim retornou para casa e imediatamente realizou um teste nuclear, provocando indignação e reclamações em todo o mundo. Naquela ocasião o líder norte-coreano foi longe demais, até mesmo na opinião da China.

Mas aparentemente os gestos ameaçadores de Kim saíram de cena, pelo menos por ora. Ele pretende fechar a usina nuclear em Yongbyon até o final deste ano. Kim já prometeu isso antes à China e aos Estados Unidos, e equipes de trabalhadores começaram até a desmontar a instalação. Porém, se desta vez ele realmente cumprir a promessa, os Estados Unidos poderiam se dispor a estabelecer relações diplomáticas com a Coréia do Norte. Isso proporcionaria a Kim acesso ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional - e aos empréstimos que poderiam ajudar o seu regime a sobreviver por mais tempo.

Novas fábricas já estão sendo construídas na próspera zona econômica especial de Kaesong. Além de algumas companhias sul-coreanas de pequeno e médio porte, a subsidiária coreana da fornecedora alemã de produtos automotivos Prettl e duas companhias chinesas já assinaram contratos para atuar no complexo industrial, buscando assegurar uma base em um dos poucos pontos da Ásia que permanecem relativamente intocados pelo capitalismo.

O "Amado Líder", conforme Kim gosta de ser chamado pelos norte-coreanos, dita o ritmo do progresso na Coréia do Norte, onde o calendário contemporâneo tem início em 1912, com o nascimento de Kim Il Sung, o pai do atual ditador e fundador da nação. Desde a sua morte, em 1994, Kim Il Sung foi nomeado presidente eterno do país. Os cidadãos norte-coreanos são obrigados a usar button na lapela com a imagem do ex-"Grande Líder" do país.

Kim Myong Ok, uma funcionária do sul-coreano Banco Woori em Kaesong, também usa o button no seu uniforme. Ela explica alegremente o objetivo do banco em uma zona econômica especial e as lições que aprende com os seus patrões capitalistas, incluindo como executar operações de câmbio. Esta é uma habilidade necessária em Kaesong, já que Kim Jong Il ordenou que a modalidade oficial de pagamento aqui seja em dólares norte-americanos, e não em wons sul-coreanos.

Kim Myong Ok acrescenta que, infelizmente, o banco não proporciona a opção de pagamento online aos clientes do banco. A Internet é proibida na Coréia do Norte, e isso significa que não existem operações bancárias on-line em Kaesong. Na verdade, todas as companhias que operam no complexo industrial só podem se comunicar com as suas sedes na Coréia do Sul - uma das nações mais densamente conectadas à Internet em todo o mundo - via telefone ou fax. "O norte está aprendendo novas coisas todos os dias com a exposição à economia de mercado", afirma o gerente do Grupo Hyundai, Byun Ha Jung. No entanto, qualquer tipo de processamento de dados eletrônicos ainda é tido como ameaça potencial pelo sistema daqui.

Em vez de utilizarem computadores para registrar o fluxo dos produtos que passam pela fronteira, de Kaesong para a Coréia do Sul, os agentes alfandegários anotam cada unidade em listas manuais. É necessário um dia inteiro para inspecionar uma única carga de caminhão - um obstáculo impossível na era da globalização.

Existem outras áreas nas quais a velocidade - ou a falta dela - tem sido o calcanhar de Aquiles dos norte-coreanos. Em maio, os dois países reservaram uma nova linha ferroviária para o transporte de produtos para Kaesong. Mas pela nova ferrovia ainda não passou um único trem de carga, e a nova estação adornada com um gigantesco retrato de Kim Il Sung permanece deserta. Aparentemente, o projeto não seguiu em frente por preocupações relativas à segurança, dizem funcionários da Hyundai.

Kwoon Soon Jin, da fábrica de sapatos, nutre preocupações de outra ordem. Segundo ele, volta e meia algo de universal ocorre em uma das fábricas: romance no local de trabalho - e nada mais nada menos do que entre norte-coreanos e sul-coreanos. É claro que o ditador Kim proíbe terminantemente tais sentimentalismos e ameaça os violadores com conseqüências graves.

"Sempre que percebemos algo do gênero, só existe uma solução para os envolvidos: a transferência imediata de postos", diz ele. E, é claro, em locais diferentes.

Wieland Wagner
Der Spiegel, 17/11/2007

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ATUALIZADO EM 28//06/2016