Página inicial
Sala de leitura
Enem
Críticas e sugestões
Eventos
Links paratodos
videos
 


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA ALGUNS VIDEOS DIDÁTICOS CPTEC.INPE


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA JOGO – QUEBRA CABEÇA COM MAPA-MÚNDI FÍSICO


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA MAPA INTERATIVO DAS EMISSÕES DE CO2 NOS DIFERENTES PAÍSES DO MUNDO E DADOS DEMOGRÁFICOS.


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E JOGUE COM O MAPA DA EUROPA


CLIQUE NA IMAGEM E LEIA AS MANCHETES DE HOJE DOS JORNAIS DE TODO O
MUNDO.


VEJA O QUANTO VOCÊ CONHECE SOBRE CONTINENTES E OCEANOS


2 JOGOS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL


CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA O MAPA-MÚNDI INTERATIVO

site www.geocienciasnomapa.com.br
CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA UM SERVIÇO DE LOCALIZAÇÃO ESPACIAL DE TESES E DISSERTAÇÕES EM GEOCIÊNCIAS

  Geografia Geral e do Brasil

O NASCIMENTO DE UMA METRÓPOLE

A partir do final do século XIX as elites cafeeiras que chegavam à capital paulista promoveram uma reformulação profunda do espaço urbano, criando uma cidade moderna e repleta de fronteiras


Instalação dos trilhos para o bonde elétrico no cruzamento da rua Direita com a rua São Bento, em 1902
ACERVO DA FUNDAÇÃO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DA ENERGIA DE SÃO PAULO


No final do século XIX as elites paulistas começaram a deixar suas fazendas no interior do estado para se instalar nas cidades. Enriquecidas pela exportação do café, escolheram especialmente a capital como destino, em um momento em que São Paulo vivia uma verdadeira explosão urbana. Esses novos moradores iniciaram uma remodelação do espaço, adaptando a cidade aos novos gostos e ao ideário dessas elites, detentoras do poder político estadual e nacional. Essa transformação gerou uma São Paulo que exibiu, na organização dos espaços e na forma de ocupação da cena urbana, toda a complexidade de um crescimento extremamente brusco e veloz, todos os conflitos sociais que a atravessam e toda a diversidade de sua população. A metrópole que surgiu dessa metamorfose passou a ser marcada por grandes contrastes, uma cidade de inúmeras fronteiras.

A primeira delas foi a que opôs modernidade e tradição. A explosão paulistana veio acompanhada de uma imensa aspiração de modernidade por parte das elites, otimistas com o potencial de progresso da nova metrópole que nascia. Pretendendo apagar os traços que lembrassem o passado pacato e provinciano, os ritmos e as paisagens da antiga São Paulo, a nova lógica queria aproximar a cidade de metrópoles como Nova York, Chicago, Londres e Paris e torná-la o novo coração econômico do país. As demolições, as construções e as transformações foram efetivamente criando um novo cenário: prédios mais altos, trilhos de bondes seguindo a eletrificação, ruas mais largas, parques e praças em estilo art-nouveau, viadutos de metal e arquitetura eclética, composta de elementos neoclássicos, empregando novas técnicas e materiais de construção.

O processo, contudo, é complexo. Ritmos e estruturas urbanas não se apagam num piscar de olhos. A velocidade do crescimento e a falta de planejamento geraram um descompasso visível entre a urbanização e as exigências criadas pela explosão demográfica: entre 1910 e 1920, a população paulistana aumentou 65%, ao passo que, num intervalo de tempo próximo, de 1908 a 1922, o número de passageiros dos bondes da Light cresceu 450%. Duas São Paulo conviviam lado a lado, reforçando com isso os contrastes. Cada carroça ou animal de carga que atravessava o centro, atrapalhava o fluxo já comprometido pela existência de ruas estreitas e tortuosas. Sublinhava, por oposição, a presença de automóveis e bondes elétricos. Ao mesmo tempo, cada novo arranha-céu deixava ainda mais baixas as construções antigas que o rodeavam, esmagadas pelo peso de sua sombra. A sede de verticalidade não se justificava pela falta de espaço, mas por um desejo de modernização que queria dar a São Paulo uma imagem de metrópole.

 

O viaduto do Chá em 1900, passando sobre o vale do Anhangabaú: a moderna estrutura de ferro contrasta com as casas antigas
ARQUIVO GUILHERME GAENSLY

As torres eram os ícones por excelência da nova cidade. Torres de fábricas, torres de arranha-céus. Elas conviviam, no entanto, com as torres das velhas igrejas coloniais, parâmetros urbanos ainda válidos para a localização e os deslocamentos dos cidadãos. Com suas festas, marcos do calendário anual, estas sinalizavam itinerários urbanos privilegiados, tradicionalmente percorridos pelas procissões.

A segunda fronteira que salta aos olhos é a social. Os lugares onde vivem e circulam as elites são testemunhas de seu sucesso econômico, tão grande quanto recente. O grupo construiu, para si mesmo, e a seus olhos, uma cidade verdadeiramente moderna, provendo o espaço paulistano de todos os equipamentos, inclusive de lazer, que permitissem a seus membros se reconhecerem como grupo dominante e se orgulharem de sua obra. Assim, o processo de transformações do espaço urbano combinou o crescimento caótico com uma política paralela que organizou, para as elites, uma cidade dentro da cidade, circuitos exclusivos e diferenciados.

Reforma do centro

O núcleo urbano original, transformado em centro, foi totalmente refeito. Suas praças e jardins públicos começaram a ser reorganizados a partir da década de 1880. Entre os anos de 1900 e 1910 inúmeras obras transformaram completamente a paisagem urbana. A reformulação foi fruto, antes de mais nada, dos projetos do prefeito Antônio Prado, realizados durante seus quatro mandatos consecutivos (1899-1910), e, em seguida, do plano Bouvard de reestruturação do centro. Novas ruas e praças foram abertas e alguns eixos principais, alargados. Criou-se o parque do Anhangabaú e reformam-se os jardins da praça da República. A praça da Sé foi ampliada e teve início a construção da nova catedral, em 1913. A região adquiriu então ares fortemente europeus, com seus passeios sofisticados, gramados bem cortados e o estilo arquitetônico de certos edifícios, como o Teatro Municipal (1911), inspirado na Ópera de Paris.

Obras de urbanização da companhia City no bairro do Pacaembu em 1926. Ao fundo, o bairro de Higienópolis. Com a chegada das massas ao centro, as elites migraram para os bairros adjacentes
ARQUIVO DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO



O centro concentrou, nos novos e ecléticos palacetes, o mercado financeiro, o comércio sofisticado e os espaços de lazer destinados às famílias ricas e aos homens de negócios. O chamado Triângulo, delimitado pelas ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, aliou-se às demais áreas refeitas, para compor o circuito voltado às elites. Dali foram afastados todos aqueles que não podiam enfrentar uma inflação imobiliária exorbitante: entre 1916 e 1936, o preço do metro quadrado aumentou 450% na parte mais valorizada do centro e 364% nos outros setores centrais, menos procurados.

Também fez parte do processo de urbanização uma separação cada vez mais nítida entre zonas comerciais e zonas residenciais. O centro tornou-se caro demais e dominado pelas atividades comerciais e financeiras. As zonas residenciais também foram delimitadas. Os casarões das elites se instalaram nas regiões altas e mais sofisticadas, como os Campos Elísios, Higienópolis e, em seguida, o espigão da avenida Paulista, aberta em 1891. Por outro lado, as habitações populares, deslocadas do centro pela especulação imobiliária, concentraram-se nas zonas baixas, próximas aos rios, onde os efeitos das cheias faziam-se freqüentemente sentir.

O lazer também foi segregado, com fronteiras bem delimitadas. Do lado das elites, os clubes exerceram um papelchave: eram espaços privados que garantiam sociabilidade exclusiva. Alguns se destacavam por sua sofisticação, como o Jockey Club de São Paulo (1876), o Club Athlético Paulistano (1900), o Automóvel Clube (1908), a Hípica Paulista (1911) e o Harmonia (1930).

Avenida Paulista no início do século XX: as chácaras convivem lado a lado com as novas mansões
ACERVO DA FUNDAÇÃO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DA ENERGIA DE SÃO PAULO - FPHESP

Os espaços públicos que acolheram as práticas de lazer trouxeram a marca dessa fronteira social. O exemplo do carnaval é eloqüente. No início do século XX, o carnaval de rua pertencia às elites. As famílias desfilavam, ricamente fantasiadas, em carros que compunham o tradicional corso da avenida Paulista. A festa favorecia os encontros amorosos, os flertes e às vezes a formação de futuros casais. Segundo a mesma lógica, essas famílias não pensariam em participar dos desfiles carnavalescos do Brás, freqüentados por italianos e espanhóis.

O povo na rua

No final dos anos 20, alguns nostálgicos lamentam, em inúmeros registros jornalísticos, “o fim da festa carnavalesca”. Trata-se, na verdade, do momento em que as elites deixam as ruas durante o carnaval. A ascensão social de algumas categorias de imigrantes e a emergência das camadas médias foram acompanhadas pelo processo de difusão do automóvel. Algumas famílias de classe média já tinham acesso, por exemplo, ao aluguel de um carro para desfilar no corso, que tornou-se menos reservado às elites. A festa viveu uma inversão. É assim que, desde o final dos anos 20, as ruas começaram a ser ocupadas pelas camadas populares durante o carnaval, e as elites transformaram-se, progressivamente, em espectadoras da festa.

Se, ao instalar-se na cidade, na virada do século, este grupo dominante tinha procurado reestruturar os espaços públicos para ocupar os pontos privilegiados da cidade, os anos 20 traziam indícios de um movimento inverso. Com o crescimento acelerado da população e o surgimento do fenômeno inédito da multidão urbana, aos olhos dessa elite as distâncias sociais não podiam mais evitar de forma suficientemente eficaz a proximidade física nos espaços públicos. O grupo começou, então, a deixar a rua e a praça pública em benefício de locais privados e reservados. O carnaval de rua popularizou-se, enquanto os bailes à fantasia, em clubes ou salões privados, além de proporcionarem às elites as ocasiões de festa por elas tão apreciadas, afirmaram-se por sua sofisticação e pela garantia de que todos os participantes pertenciam à mesma classe social.

Mulheres passeiam na esquina da rua 15 de Novembro com a travessa do Comércio, 1906. A região, conhecida como Triângulo, era a mais sofisticada da cidade na época
ARQUIVO DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO

A fronteira dos sexos

Por fim, uma última fronteira distinguia as relações de homens e mulheres com o espaço da cidade. Na virada do século passado as mulheres das camadas dominantes eram as mais novas personagens a despontar na cena urbana. As mulheres pobres freqüentavam a cidade desde há muito tempo, mas o processo de urbanização veio acompanhado de uma série de regras que limitaram essa presença, empurrando vendedoras e trabalhadoras flutuantes para locais mais afastados e preservando as áreas centrais para as nobres. Enquanto isso, as mulheres das novas camadas médias pareciam circular mais livremente pela cidade que as ricas, extremamente vigiadas.

Para as mulheres de “boa família”, os locais de sociabilidade feminina ainda eram raros, basicamente restritos à zona chique do Triângulo. Equipada com confeitarias, salões de chá e sorveterias, seu comércio sofisticado atraía a presença cada vez mais numerosa dessas novas clientes, que saíam para olhar vitrines e fazer compras.

Num momento em que o corpo das mulheres de elite desfilava mais – ou ao menos preparava-se para isso –, sob o olhar dos homens, era necessário que elas investissem no seu andar, alvo de novas atenções e vigilâncias. Para isso surgiram as aulas de ginástica nos clubes freqüentados pelas elites, definindo verdadeiros cânones da feminilidade: se o tronco e os braços permaneciam finos e frágeis, as pernas e os quadris deveriam ser trabalhados.

A entrada das mulheres da elite no espaço público da cidade foi marcada por uma série de rituais. Elas estavam cada vez mais nas ruas, mas deviam sempre andar acompanhadas e só poderiam ir a locais específicos em horários precisos. Essa ocupação da praça pública estava longe de corresponder à experiência masculina, marcada por maior intimidade, por um usufruto prazeroso do espaço urbano, aos quais vários memorialistas da São Paulo da época se referem. E esta última fronteira atravessava as classes sociais: definitivamente, as massas urbanas eram, na época, antes masculinas que mistas.

Mônica Raisa Schpun
Revista História Viva. Edição 47 - Setembro 2007

Retornar ao índice

ATUALIZADO EM 28//06/2016