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  Geografia Geral e do Brasil

A GUERRA DA ÁGUA TOMA CONTA DA FAVELA DE CITÉ SOLEIL, NO HAITI

Há apenas mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população de 200.000 a 350.000 habitantes


O reservatório de água transpira, desenhando rastros sobre o concreto poroso. Quatro vezes por semana, em Cité Soleil, essas manchas de umidade transmitem o sinal abençoado de que a cisterna está cheia. Aos pés do reservatório, com um distintivo oficial alfinetado na sua camiseta falsificada do Manchester, Jean-Béliard Dutes, 60 anos, abre uma após a outra as comportas antes que o conteúdo, sob pressão, caia com tudo sobre a sua cabeça.

A distribuição começa. Mais viva do que a própria água, a notícia se propaga pela maior favela de Porto-Príncipe. Neste lugar de desumanidade, estão amontoados os mais pobres dentre os pobres do Haiti, um país onde 80% da população vivem com menos de US$ 2 (R$ 3,90) por dia. Aqui, entre o mar do Caribe e a estrada Nationale 1, ficaram encalhados todos aqueles que alcançam o fundo da miséria.

É para beber, cozinhar e, talvez, se lavar... Vindas de trás do amontoamento de telhados de metal superaquecidos, após terem passado pelo emaranhado de trilhas insalubres, as mulheres chegam com os seus recipientes. Alguns minutos mais tarde, a água potável jorra das 53 fontes espalhadas pelo gueto. Protegidos por um abrigo com grades, alguns encarregados abrem e fecham as torneiras, tentando controlar o empurra-empurra e dominar as brigas verbais e por vezes físicas. Não demorará mais de duas horas até que os 1.000 m3 do reservatório sejam esvaziados.

Mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população estimada entre 200.000 e 350.000 habitantes. É uma quantidade irrisória. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (cuja sigla é CICR) estima em 6 litros a ração cotidiana por pessoa, ou seja, três vezes menos do que as quantidades mínimas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, em Cité Soleil, esta penúria até que constitui um progresso. "Anteriormente, nós chegávamos a ficar dois ou três meses sem água", explica, no dialeto local, Prosper Borgelin, conhecido pelo apelido de "Gauché", 50 anos, um responsável de setor.

Por muito tempo a água esteve controlada pelas gangues, que haviam instaurado uma exploração sistemática da favela. "Eles dividiam entre si o controle das fontes e cobravam um imposto", conta Ugo Mora, um delegado da Cruz vermelha para assuntos de água e de saneamento básico. A companhia local encarregada da adução não ousava mais se aventurar neste refúgio de ladrões e, entre 2001 e 2006, não recebeu um centavo sequer em taxas ou encargos. Regularmente, fuziladas acontecem entre facções interessadas no controle do precioso líquido. Jean-Béliard Dutes por pouco não perdeu um olho num desses acertos de contas. "Muitos pessoas morreram quando elas estavam simplesmente indo buscar água", explica Ugo Mora.

Quando ela iniciou as suas atividades na ilha, em 2004, a Cruz vermelha teve que negociar com os chefões o direito de restaurar a rede. Até hoje, o Comitê é obrigado a lidar com as captações selvagens promovidas por criminosos armados. Entre 150 e 200 reservatórios privados desviam uma parte desta dádiva e enriquecem bandidos. O preço oficial é de 2 centavos de euro (R$ 0,05) o "bokit" (cerca de 20 litros), ou seja, cinco a dez vezes menos do que no mercado negro.

Esta batalha da água é exemplar da guerra sem nome que vem sendo travada em Cité Soleil. No auge das rivalidades entre gangues, o dispensário da Cruz vermelha atendia todo dia 7 a 8 feridos por balas. "Nós estamos acostumados a trabalhar em países assolados por conflitos. Aqui, nós estamos confrontados em tempo de paz a uma violência e a um desamparo comparáveis", explica Ugo Mora. A polícia nacional haitiana desertou o lugar. No verão de 2006, dois agentes que tinham se perdido andando pelas vielas foram assassinados com uma bala na cabeça.

Encarregada da segurança, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) tenta progressivamente retomar o controle daquilo que fora uma zona de não direito. Ela efetuou diversas operações ao longo dos últimos meses que causaram dezenas de mortes entre os delinqüentes, os capacetes azuis (soldados das forças de manutenção da paz), mas também na população civil.

Assim, em 9 de fevereiro, 700 soldados da ONU conduziram uma vasta operação, contando com a cobertura de helicópteros, que degenerou em combates de rua com armas pesadas, pois os soldados enfrentaram grupos armados com fuzis AK 47 ou M 14. Em todo lugar, os impactos de balas ainda podem ser vistos: uma porta segue crivada por cerca de vinte furos, uma carcaça de carro foi recortada com tiros de metralhadoras. O reservatório de água, salpicado por impactos que foram tapados às pressas, não foi poupado.

O contingente brasileiro instalou campos entrincheirados no coração da favela e conduz incessantes patrulhamentos com blindados ligeiros que passam muito perto dos balcões do comércio. Os capacetes azuis alternam as prisões espetaculares com os gestos promocionais, assim como, naquele dia, a distribuição de equipamentos de futebol para os dois times principais do subúrbio. Os principais chefões, como Evans, Amaral ou Belony, foram presos ou estão foragidos. Eles prosperavam com a indústria do seqüestro, uma atividade que sofreu uma nítida regressão ao longo dos últimos meses. Mas aqui, ninguém gosta muito de falar mal desses fora-da-lei, meio-heróis, meio-demônios. Todos ficam calados ou preferem falar em "supostas gangues", o que é um sinal de que o medo não desapareceu.

Por tanto tempo eles impuseram a sua lei sobre a vida da favela que ninguém aqui ousa ainda acreditar no seu fim. Os diferentes governos por muito tempo se acomodaram com os poderes paralelos que mandavam em Cité Soleil. O ditador de triste fama François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, que havia criado em 1960 esta zona, que fora então batizada de Cité Simone, do nome da sua mulher, e, mais tarde, o seu filho Jean-Claude, conhecido como Bébé Doc, entregaram a sua "administração" aos seus jagunços, os "tontons macoutes".

Wilner Louis, 27 anos, era o filho de um deles. O seu pai foi linchado em 1986, por ocasião da derrubada do regime Duvalier. Ao ascender ao poder, o "Pai" Aristide, por sua vez, armou uma milícia particular, as "Chimères" (Quimeras). O seu partido, a Família Lavalas, reinava absoluto sobre Cité Soleil. Wilner Louis era um militante deste partido. Ele tenta justificar: "Ao menos, Aristide cuidava de nós", diz. Quando "Titid" foi obrigado a deixar o poder, em 2004, os seus capangas seguiram mantendo a situação de insegurança. "Eles queriam desestabilizar o país para trazer Aristide de volta ao poder", explica o advogado Thierry Fagart, o diretor da seção dos direitos humanos da Minustah.

Em 2006, Cité Soleil votou maciçamente em René Préval, um antigo colaborador de Aristide. O novo presidente tentou negociar com os chefes das gangues. Os capacetes azuis permaneciam então confinados nos seus acantonamentos. "Aquele foi um período esquisito", recorda-se Thierry Fagart. "Em dezembro, o presidente Préval deu finalmente a sua autorização para implementar medidas fortes". Graças á intervenção contundente da ONU, a calma voltou. "As pessoas hoje respiram outro ar", resume Wilner Louis. Até hoje este homem diz ser um partidário de Aristide, só que ele traja um capacete azul da Minustah. Os tempos são incertos.

"O governo não está fazendo nada", lamenta Wilner. De fato, o Estado está mesmo ausente. As organizações não-governamentais (ONGs) devem lidar com situações de emergência. Por exemplo, os seus ativistas hasteiam grandes bandeiras sobre os seus veículos quando eles penetram na zona. A organização Médicos do Mundo, ou Médicos Sem Fronteiras, abriu dispensários e vem formando profissionais da saúde. Na escola Terre promise (Terra prometida), as mesas trazem a sigla da Unicef. "Yéle Haiti", a associação de Wyclef Jean, uma estrela local do hip-hop bem-sucedida nos estados Unidos, empreendeu várias obras.

Regularmente, planos de ajuda são anunciados. No início de maio, a embaixadora dos Estados Unidos visitou a zona, contando com a proteção de guarda-costas fortemente armados, para anunciar a liberação de US$ 20 milhões (R$ 38,6 milhões) para a reabilitação da favela. Mas, num país que até hoje segue classificado entre os três mais corruptos do planeta, o dinheiro não demorou a ficar extraviado.

Apenas as promessas chegam e se espalham em Cité Soleil. E também as águas usadas rejeitadas pelos bairros ricos de Pétionville, situados nas alturas. Paul Philama, 50 anos, gostaria de partir, mas não consegue se arrancar desta miséria que "gruda" nas pessoas. Este homem teve 9 filhos de duas uniões, e vive num sufocante apartamento de três cômodos, que ele aluga por 110 euros (cerca de R$ 280) por ano. "Com a Minustah, agora ficou mais calmo por aqui", reconhece Paul. "Mas continuamos sem ter nada para comer". Demitido do seu serviço em fevereiro, ele "se vira", vive de pequenos bicos que mal lhe permitem não morrer de fome. Uma data está inscrita com tinta sobre a parede: o dia 14 de agosto. Naquele dia, o "proprietário" deverá comparecer para receber o aluguel. Paul Philama já sabe que ele não poderá pagar. "Nós vamos ser expulsos".

Um pouco mais adiante, Alta Gracia, 25 anos, vive numa situação quase tão precária. Esta família de 9 pessoas tenta viver num casebre de 8 m2, cuja decoração se limita a uma velha Bíblia em dialeto e um relógio de parede publicitário da marca Maggi. Quando o sol bate forte, o lugar se transforma numa fornalha. Quando chove, a água se infiltra. Mãe de 3 filhos - ela deu à luz o primeiro aos 17 anos -, Alta Gracia vende de forma clandestina copinhos no mercado. A jovem mulher deixou de alimentar qualquer sonho, a não ser a esperança de "poder comer amanhã".

"A situação está bem melhor em matéria de segurança, constata Reynal Jolifils, um responsável social. "Mas isso não quer dizer que o problema das gangues foi solucionado", prossegue. "As fontes da violência ainda estão presentes, a miséria predomina de forma insistente".

"Se nada for feito para ajudar os mais pobres, a violência voltará", confirma Thierry Fagart. "As pessoas que trabalhavam para as gangues ainda estão presentes na favela, mesmo se elas permanecem quietas", garante Holson Francique, 36 anos, que trabalha a serviço da Cruz Vermelha.

Os antigos tenentes aguardam para assumir a sucessão, enquanto os jovens desocupados constituem uma reserva inesgotável de mão-de-obra para eles. As armas de fogo estão caladas, mas os ataques com arma branca continuam numerosos. "Volta e meia acontecem linchamentos", explica Prosper Borgelin. Então, será mesmo a paz ou apenas uma trégua? A favela já acreditou tantas vezes que ela estava se livrando da desgraça. Ugo Mora tem apenas uma única certeza: "Por conta da sua história, Cité Soleil é o barômetro da situação política no Haiti".


Benoît Hopquin
Le Monde, 16/06/2007
Tradução: Jean-Yves de Neufville
Fonte: Uol Mídia Global

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ATUALIZADO EM 28//06/2016