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  Geografia Geral e do Brasil


NÃO SABEMOS O QUE COMEMOS

Transgênicos acentuam mal-estar cultural da alimentação

A recente introdução, entre os alimentos do homem ou de animais de criação, de organismos geneticamente modificados ou produtos que contêm tais organismos vem gerando sérios questionamentos quanto aos seus aspectos sanitários, ecológicos e econômicos, entre outros. Do ponto de vista cultural, essa alteração vem acentuar um problema atual: o mal-estar da alimentação, causado pela perda do controle sobre o que comemos e pela sensação de artificialidade no alimento.

Há um mal-estar contemporâneo ligado à alimentação que não decorre apenas do crescimento simultâneo da fome e da obesidade, mas subordina-se à natureza do complexo industrial alimentar, que submete a sociedade a seus interesses e pressupostos. Grandes volumes de produção de poucos e invariáveis grãos, a maior parte para consumo como ração animal, e um excesso de carboidratos, gorduras animais e açúcares, disseminados com uma técnica publicitária insidiosa e atordoante. Essas características levaram ao que já foi chamado de 'gastroanomia'.

Além do polarizado crescimento da carência e do excesso, o problema contemporâneo da alimentação é que ela se torna cada vez mais heteronômica, ou seja, menos autônoma. Preparamos cada vez menos o que comemos, perdemos os sentidos culturais do alimento e do tempo partilhados, comemos mal e rapidamente e, sobretudo, não controlamos e não sabemos o que comemos.

Os alimentos transgênicos, ou seja, que contêm produtos ou subprodutos de organismos geneticamente modificados, constituem uma das mais recentes alterações introduzidas na alimentação -- isso aconteceu há menos de uma década. As empresas de biotecnologia ampliaram seu controle do mercado da alimentação humana e animal por meio da invenção de novos organismos vivos, plantas e/ou animais -- produtos artificiais da combinação de genes de espécies distintas (chegando até à mistura de filos diferentes, através da transferência de genes entre animais e plantas).

A quimera, animal mitológico, híbrido e impossível, com corpo de cabra, cabeça de leão e cauda de dragão, tornou-se real. Desde 1973, apesar das propostas efêmeras de moratória, vêm sendo criados novos organismos vivos com genes recombinados, destinados não só a servirem de alimentos. A guerra biológica foi uma das fronteiras de vanguarda na pesquisa de novas ou velhas doenças e de toxinas geneticamente manipuladas, mas as mais rentáveis aplicações dos organismos transgênicos foram as industriais, como no uso de bactérias transformadas para produzir insulina, interferon e hormônio do crescimento humano.

A tecnologia de manipulação genética de espécies animais e vegetais para fins industriais, medicinais ou alimentares certamente pode ter usos adequados, com uma potencialidade imensa ainda desconhecida. No entanto, o uso atual dos transgênicos na agricultura de grãos tem trazido a marca de uma expansão precipitada, levando ao temor global de uma decomposição ainda maior na qualidade da alimentação humana.

O mais curioso não é o fato -- já suficientemente bizarro -- de se misturarem na comida genes de seres vivos diferentes, criando o que os europeus chamam de frankenfoods, mas o de que a mais poderosa empresa de produção de alimentos transgênicos do mundo também seja a maior produtora de venenos. A empresa norte-americana Monsanto, maior produtora mundial de herbicidas, produziu um tipo de soja que recebeu genes de uma bactéria e de uma flor para tornar-se mais resistente ao herbicida Roundup, fabricado pela própria Monsanto. A soja resistente, chamada Roundup Ready, assim como o milho que incorpora o veneno nas próprias folhas através de um gene recombinado, são os principais produtos transgênicos no mercado mundial de alimentos, embora enfrentem grande resistência no mercado europeu.

Assim, a soja transgênica tem servido para aumentar o uso e a dependência de um agrotóxico específico de uma empresa multinacional. Ao custo de maior contaminação ambiental e maior devastação florestal consegue-se maior volume de produção, mas essa especialização agrícola em monoculturas para exportação não garante o abastecimento de alimentos para o mercado interno.

As conseqüências da disseminação de produtos transgênicos no mercado de alimentos têm várias dimensões. Do ponto de vista histórico, podemos observar algumas alterações inéditas. A maior transformação na forma como a humanidade se alimenta ocorreu na revolução neolítica, há cerca de 10 mil anos, quando surgiu a agricultura. Desde então, as técnicas agrícolas, em especial o saber dos agricultores sobre as sementes e a forma de selecionar as melhores para o replantio, estiveram na base da produção de alimentos.

A segunda maior transformação, produto do intercâmbio moderno de gêneros entre os continentes, seguido da industrialização, permitiu uma globalização do saber arcaico da domesticação das plantas alimentícias, levando as especiarias, o milho, a batata, a cana-de-açúcar, entre tantas outras espécies vegetais, a tornarem-se peças chaves na constituição do moderno sistema mundial de mercado.

Atualmente, a adoção de sementes transgênicas que geram plantas com grãos infecundos, devido à presença de um gene 'exterminador', ameaça a autonomia dos produtores agrícolas sobre as sementes, tornando-os inteiramente dependentes de grandes fornecedores de fertilizantes, agrotóxicos e das próprias sementes. O direito de propriedade estende-se sobre organismos vivos, mercantilizando a vida. Essa agricultura totalmente subordinada a empresas transnacionais de agribusiness expropria os saberes etnobotânicos e etnoagrícolas, destrói os pequenos produtores, inviabiliza a reforma agrária, interfere no equilíbrio ecológico e concentra a renda.

A produtividade agrícola ampliada, nas condições da competitividade do mercado oligopolizado, vem levando a um fenômeno paradoxal: mais agricultura para animais do que para seres humanos. Como já ocorreu com o milho, a pressão pelo aumento da produção de soja decorre principalmente da sua utilização em ração para gado de corte. Um uso perdulário da terra agricultável.

Esse modelo alimentar de carne produzida cada vez em maior quantidade e a um custo sempre reduzido levou a alguns dos maiores desastres recentes da indústria alimentar: a doença da vaca louca e contaminações avícolas na Ásia. Confinamento, abuso de hormônios e antibióticos e, no caso específico da vaca louca, rações com restos de animais para herbívoros, criaram a pior doença veterinária do final do século 20, obrigando o abate de rebanhos nacionais quase inteiros.

Os organismos geneticamente manipulados, já amplamente usados na indústria alimentar humana e animal, trazem inúmeros questionamentos quanto à plena segurança, à contaminação e à diminuição da diversidade genética, e ainda em relação à intensificação da dependência econômica dos países pobres diante de algumas empresas transnacionais que, ao obter patentes biológicas, ampliaram o âmbito da propriedade privada.

Mas há outro aspecto menos evidenciado, de um ponto de vista cultural. A cultura dos transgênicos reforça uma alimentação e uma cultura alimentar cada vez mais heteronômica. Cada vez sabe-se e controla-se menos e o que se está comendo. A sombria previsão da ficção de que pílulas alimentícias substituiriam a comida ainda não aconteceu. Embora haja uso crescente de pílulas de vitaminas ou suplementos alimentares, estas não se tornaram a forma predominante de se alimentar, mas a natureza sintética das coisas que comemos torna-se cada vez mais dominante.

A industrialização produziu um resultado ambíguo, ampliou as capacidades de produção e tornou global o intercâmbio de produtos, mas retirou a autonomia que as sociedades agrárias tinham para produzir e identificar o alimento na sua gênese, no seu sentido e no seu conteúdo exato. Há um dito que afirma que as pessoas comuns não deveriam saber como se fazem as salsichas e as leis, pois ficariam horrorizadas. Atualmente, além de ainda não sabermos exatamente o que contêm as salsichas, não podemos imaginar o que comem as vacas, porcos e galinhas de que supostamente elas são feitas. E, ainda pior, deixamos de saber o que de fato são os grãos que hoje alimentam os animais e a nós próprios.

O que ocorre com os transgênicos não é apenas a artificialidade química, mas também a biológica. Os híbridos produzidos, organismos geneticamente modificados, remetem a velhos pesadelos do imaginário contemporâneo dos riscos da ciência. Isso evidencia apenas um aspecto da importância crescente do 'biopoder'. As questões éticas da biotecnologia, já antecipadas nas ficções utópicas (ou distópicas) de John B. S. Haldane (1892-1964) e Aldous Huxley (1894-1963), tornaram-se plenamente atuais.

A engenharia genética poderá criar novas espécies de plantas e animais. Resta saber se, nessa perspectiva, as diferenças genéticas entre as populações humanas não poderão intensificar-se e serem manipuladas de forma deliberada para fins de suposta eugenia e predomínio racial, para não falarmos da criação de novos seres híbridos, com resultados imprevisíveis na biosfera.

Os transgênicos trazem aos alimentos contemporâneos uma suspeita oculta. Mesmo que os rótulos de todos os alimentos indiquem se podem conter algum OGM, como prevê o protocolo de Cartagena, restam vários riscos de contaminação ou de ocultação. Isso aumenta o mal-estar cultural da alimentação planetária, uma sensação de risco e artificialidade no alimento, de perda da autonomia sobre os meandros mais íntimos da vida cotidiana.


Revista Ciência Hoje on line,

acessada em 29 de setembro de 2006

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ATUALIZADO EM 28//06/2016