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  Geografia Geral e do Brasil


PARA O DIRETOR DA AIEA, ORIENTE MÉDIO ESTÁ REPLETO DE RAIVA, FRUSTRAÇÃO E HUMILHAÇÃO

Em uma entrevista a "Der Spiegel", o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) discute a escalada militar no Líbano, a espera pelo próximo passo do Irã, o presente concedido à Índia e o persistente desafio da Coréia do Norte.

Der Spiegel: Senhor ElBaradei, como ganhador do Prêmio Nobel da Paz, como você pode contribuir para o fim dos conflitos no Oriente Médio?

ElBaradei:
Não consigo me lembrar da última vez em que a situação na região esteve tão ameaçadora. O povo do Oriente Médio acredita que sua vida não vale muita coisa para o resto do mundo, e que os outros países vêem as vítimas civis como danos colaterais. O sistema de segurança na região entrou em colapso. Os governos não têm controle sobre as milícias que estão cometendo atos de violência em seus territórios. Para onde quer que eu olhe, tudo o que vejo é raiva, frustração e humilhação.

Der Spiegel: Você é favorável ao envio imediato de tropas de paz das Nações Unidas, dotadas de uma autoridade "robusta", para o sul do Líbano?

ElBaradei:
Essa é a única solução. O banho de sangue precisa ser contido rapidamente, e é necessário que se promova um cessar fogo sem demora. Mas ainda mais importante é uma solução abrangente para o problema subjacente. A questão palestina é o elefante na sala de estar. Não se pode tratar apenas os sintomas. Os palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia estão vivendo sob um regime de ocupação há 39 anos. Não devemos nos satisfazer com o esboço de um mapa do caminho após o outro, e ficar meramente observando enquanto esses planos fracassam.

Der Spiegel: Uma força de estabilização teria que criar uma zona de
contenção, o que significaria desarmar o Hizbollah. Será que a Organização das Nações Unidas (ONU) é capaz de fazer tal coisa?

ElBaradei:
Se não houver um cessar-fogo, é inevitável que o Líbano mergulhe em uma guerra civil. É por isso que a coisa mais importante é parar os combates. E, a seguir, a força da ONU necessitaria de um mandato robusto. A ONU é capaz de desarmar as milícias e reduzir as tensões. No entanto, a solução de longo prazo é política e não militar. O mesmo se aplica à situação confusa no Iraque. A minha maior preocupação é com o fato de que, neste momento no qual civis são atacados no Oriente Médio, todas as regras elaboradas para proteger a vida humana, conforme expostas na Constituição da ONU, estão sendo solapadas.

Der Spiegel: Os israelenses têm uma necessidade legítima de segurança. Eles vêem os seus ataques maciços como uma forma de destruir o Hizbollah de uma vez por todas.

ElBaradei:
Quanto mais violência os israelenses cometerem, mais radicais se tornarão os seus inimigos. Este conflito corre o risco de se alastrar em proporções epidêmicas, podendo ultrapassar as fronteiras da região. O Oriente Médio não possui fronteiras reais. Tudo o que acontece lá influencia diretamente o resto do mundo.

Der Spiegel: O Irã é a maior fonte de financiamento do Hizbollah. Vários especialistas no Oriente Médio acreditam que o regime de Teerã, liderado pelos mulás, é a força por trás da atual escalada deste conflito, e que a idéia dos iranianos usar a situação para desviar as atenções que estão voltadas para o seu programa nuclear.

ElBaradei:
Eu não sei, mas uma coisa é certa: o Irá é uma potência regional importante. E, quer se goste disso ou não, será difícil encontrar uma solução sem que se mantenha um diálogo com Teerã.

Der Spiegel: É precisamente isto que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deseja evitar.

ElBaradei:
Isso é um problema. Não dá para negociar sempre por meio de intermediários. Isso torna mais significante o fato de os Estados Unidos terem decidido integrar as conversações nucleares com Teerã. Trata-se de um precedente importante.

Der Spiegel: A maior parte dos países está consternada com as táticas de postergação utilizadas pelo Irã na polêmica sobre o seu programa nuclear. Você também declarou, em janeiro, que estava perdendo a paciência com Teerã.

ElBaradei
: É verdade.

Der Spiegel: Agora estamos em julho, e Teerã ainda não demonstra nenhuma disposição em cooperar. A comunidade internacional está ficando impaciente enquanto aguarda uma resposta à oferta que foi elaborada pelas cinco potências nucleares e pela Alemanha. Essa oferta inclui incentivos políticos e econômicos, tal como o fornecimento de um reator de água leve a Teerã. Em troca, pediu-se a Teerã que cancelasse as suas atividades de enriquecimento de urânio, uma das condições fundamentais para a fabricação de uma bomba nuclear.

ElBaradei
: É uma boa oferta, e eu espero uma resposta em breve. Os iranianos me disseram que precisam de mais algumas semanas para dar uma boa examinada em todos os aspectos da proposta. O anúncio feito na semana passada por Teerã - de que eles estão "analisando seriamente" o pacote, e que o vêem como uma abordagem positiva para encontrar uma solução diplomática - é algo de encorajador...

Der Spiegel: ... ou apenas o usual jogo de gato e rato...

ElBaradei:
...mas existe desconfiança mútua entre o Irã e o Ocidente. Demorará para que isso seja superado.

Der Spiegel: Mas foi o regime iraniano que nitidamente mentiu e enganou o Ocidente nos últimos anos no que diz respeito ao seu programa nuclear. Será que Teerã não precisa aceitar a oferta incondicionalmente e cancelar as suas atividades de enriquecimento de urânio?

ElBaradei:
Não existe outra escolha. Porém, até onde sabemos, os iranianos não aceleraram o programa de pesquisa nuclear. Tal aceleração seria um sinal de que eles estariam desenvolvendo um programa nuclear com fins militares. Aparentemente existem direções políticas conflitantes em Teerã. E, entre o preto e o branco, há muitas gradações de cinzento.

Der Spiegel: A ameaça de sanções por parte da ONU é efetiva?

ElBaradei:
Precisamos ser pacientes. Umas poucas semanas não farão
diferença. A questão não é o programa nuclear iraniano, mas a segurança
regional.

Der Spiegel: Você parece otimista. Mas não é provável que Teerã insista em enriquecer urânio, e responda à oferta com uma contra-proposta inaceitável?

ElBaradei:
Se os iranianos perderem esta grande oportunidade, terão cometido um erro fatal. Isso levaria a uma escalada das sanções. As sanções seriam inevitáveis, mas não eliminariam o problema, e se a situação se deteriorar, nos arriscaremos a perder as nossas últimas oportunidades de inspeção.

Der Spiegel: Teerã reclamou recentemente do seu principal inspetor no Irã, o belga Chris Charlier. Existe alguma verdade nas notícias publicadas pela imprensa segundo as quais você o removeu do cargo em resposta a pressões iranianas?

ElBaradei:
As coisas não se passaram bem dessa forma. Os nossos estatutos dão a qualquer Estado que é monitorado pela AIEA o direito de rejeitar um inspetor que não é do seu agrado. O mesmo se aplica à diplomacia, onde um Estado pode rejeitar um embaixador proposto como persona non grata.

Der Spiegel: Então ele foi suspenso a pedido do regime dos mulás?

ElBaradei:
Não, ele continua trabalhando em uma posição-chave no que diz respeito à questão iraniana. Mas ele não viajará mais a Teerã até que haja uma disposição em contrário. Contamos com 200 inspetores capazes de realizar inspeções no Irã. Funcionários individuais não são o problema. A questão é fazer o trabalho. Eu denunciaria a política seguida no momento em que não fôssemos mais capazes de trabalhar no Irã.

Der Spiegel: Você teme que Teerã cancele os acordos e expulse a AIEA do país?

ElBaradei
: Essa ameaça foi mencionada.

Der Spiegel: Não já nenhum inspetor da ONU na Coréia do Norte desde o final de 2002. Será que Pyongyang representa uma ameaça dramática à humanidade?

ElBaradei:
A maioria dos especialistas e autoridades da área de
inteligência, incluindo os norte-americanos, acredita que o Irã ainda
demoraria entre cinco a dez anos para fabricar armas nucleares. Sob este aspecto, a Coréia do Norte está bem mais avançada do que o Irã. De fato, um quadro de pesadelo já se delineou na Coréia do Norte.

Der Spiegel: Você acredita nas alegações de Pyongyang de que a Coréia do Norte já é uma potência nuclear?

ElBaradei:
Existem várias indicações de que isso é verdade. Eles certamente possuem o plutônio e o know-how.

Der Spiegel: E eles contam com mísseis capazes de lançar ogivas nucleares. No início de julho, o ditador norte-coreano Kim Jong Il realizou testes com mísseis, apesar das advertências internacionais, fazendo com que o Conselho de Segurança da ONU impusesse sanções sobre aquele regime.

ElBaradei:
A Coréia do Norte é um exemplo perfeito de como não lidar com uma situação de crise. Nesse caso a comunidade internacional fracassou. A questão não é gostar ou não de um regime, e sequer se achamos a ficha de direitos humanos deste regime deplorável. Precisamos fazer acordos, não no que diz respeito a princípios, mas em termos de tática - não podemos jamais perder de vista o quadro mais amplo.

Der Spiegel: Isso significa que você viajaria à Coréia do Norte caso as negociações voltassem a se tornar possíveis?

ElBaradei:
É claro. Eu gostaria de imaginar que pudéssemos elaborar uma proposta ampla para a Coréia do Norte, similar àquela que apresentamos a Teerã. Uma diplomacia criativa é necessária.

Der Spiegel: Mas o regime de Kim Jong Il acabou de dizer que não retornará à mesa de negociação. Na verdade, agora que ele foi alvo de sanções do Conselho de Segurança, o ditador está ameaçando expandir ainda mais o ser arsenal de armamentos, e diz que pretende continuar realizando testes com "todos os meios e métodos".

ElBaradei:
Estou muito preocupado com as conseqüências que a situação norte-coreana poderá ter para toda a região do leste da Ásia. Não vejo nenhuma alternativa às conversações.

Der Spiegel: Mas, no final das contas, isso significa apenas que a
comunidade internacional está recompensando Estados que usam o trunfo
nuclear.

ElBaradei:
Eu discordo. Não estamos falando sobre recompensas. Final, estamos exigindo em troca que esses países se abram e se submetam às nossas regras. Nada é gratuito.

Der Spiegel: Nova Déli acaba de conseguir algo gratuitamente, e nada mais nada menos do que dos Estados Unidos. O governo Bush reconheceu a Índia como uma potência nuclear e pretende fornecer tecnologia nuclear, e até mesmo urânio, àquele país. Você não ficou perturbado com este acordo?

ElBaradei:
É uma situação na qual todos saem ganhando. A Índia está
recebendo tecnologia nuclear limpa e moderna, e está incluída na lista dos parceiros engajados nos esforços para a não proliferação. Afinal, a Índia é a maior democracia do mundo e uma potência nuclear...

Der Spiegel: ...sem ter assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

ElBaradei:
Quem quer que acredite que os indianos aderirão ao tratado é ingênuo. Mas pelo menos teremos o direito de enviar os nossos inspetores da AIEA à Índia para inspecionarem os reatores nucleares indianos. Eu preferia que tivéssemos uma influência maior no subcontinente, mas é desta forma que funciona a realpolitik. Também temos certas reservas em relação às cinco potências nucleares originais, que, ao contrário daquilo que é preconizado pelo Tratado de Não Proliferação no sentido de que reduzam os seus arsenais, estão na verdade atualizando esses armamentos nucleares.

Der Spiegel: Você acaba de vir da reunião de cúpula do G-8, onde, além do Oriente Médio, as questões referentes à energia foram o principal tópico das discussões. Com a exceção da Alemanha, todos parecem estar apostando na construção de novas usinas nucleares. Esta é a abordagem correta?

ElBaradei:
Todo Estado tem o direito de escolher a sua própria abordagem, assim como a Alemanha está fazendo. No seu país, umas poucas usinas nucleares continuarão funcionando durante mais 20 anos, pelo menos segundo os planos atuais. Talvez os alemães modifiquem o seu ponto de vista neste ínterim, e talvez decidam ampliar este período. Não há dúvida de que a energia nuclear está passando por um renascimento. Aquela energia nuclear que não agride o meio-ambiente desempenhará um papel na política energética mundial. Um quarto da população do planeta, cerca de 1,6 bilhão de pessoas, não tem acesso à eletricidade. Esses indivíduos não terão um futuro sem energia acessível.

Der Spiegel: Você não está preocupado com os riscos de segurança inerentes à energia nuclear?

ElBaradei:
As usinas de energia nuclear, assim como todas as grandes instalações de energia, precisarão ser protegidas contra terroristas.

Der Spiegel: Na verdade estávamos nos referindo ao problema não resolvido do armazenamento do lixo nuclear. Agora os Estados Unidos e outros países planejam enviar parte do seu lixo nuclear para uma gigantesca instalação de armazenamento na Rússia.

ElBaradei:
Não creio que esta idéia seja tão ruim assim. A Rússia conta com as condições geológicas ideais e com a capacitação técnica para lidar com isso. É claro que é absolutamente necessário que sejam mantidos os mais elevados padrões de segurança.

Der Spiegel: Isso significa cada vez mais responsabilidades para a AIEA. Vocês estão equipados para isso? Ou a agência mundial de fiscalização nuclear está meio impotente?

ElBaradei:
É claro que precisamos de mais autoridade, de mais competências. Não existe um único Estado capaz de atuar sem a cooperação de outros Estados. Isso é algo que até o mais poderoso país já reconheceu.

Der Spiegel: Senhor ElBaradei, obrigado por esta entrevista.

Der Spiegel,
28 de julho de 2006

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ATUALIZADO EM 28//06/2016