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  Geografia Geral e do Brasil


CHINA INAUGURA A BARRAGEM DAS TRÊS GARGANTAS, SÍMBOLO DO GIGANTISMO DOS SEUS DESAFIOS

Esta barragem - a maior já construída - de US$ 25 bi atende as necessidades de uma expansão econômica sem precedente, mas ela também gere enormes custos humanos e ecológicos e pode resultar numa catástrofe ambiental

No decorrer de quase meio-século de comunismo, a China terá implementado alguns dos projetos de domesticação da natureza entre os mais ambiciosos da história da humanidade. Mas a aceleração fulgurante deste processo que foi verificada nos últimos anos mudou por completo a situação: a globalização da sua economia, a maturidade alcançada por um capitalismo que permaneceu por muito tempo anárquico e artesanal, e o temor diante do perigo que representa o superaquecimento da economia fizeram com que a questão do desenvolvimento sustentável irrompesse na ideologia oficial, de maneira bastante singular e irreversível.

Esquizofrênica, porém pragmática, a China de hoje está confrontada em matéria de meio-ambiente a uma tarefa gigantesca.

Foram necessários no total 13 anos e um orçamento de mais de US$ 25 bilhões (R$ 54,8 bilhões) para erigir esta barragem que constitui o maior projeto hidrelétrico do mundo. Com mais de 2,3 km de comprimento, 185 metros de altura (com uma diferença de nível de cerca de 120 metros entre o reservatório rio-acima e a água rio-abaixo), a barragem requereu 27 milhões de metros cúbicos de concreto, e oferece uma capacidade de contenção da água de 39,3 bilhões de m³.

Contudo, esta barragem não entrará em operação antes de 2008, quando todas as centrais estiverem instaladas. Essas devem permitir produzir cerca de 85 bilhões de quilowatts-hora (kWh) por ano de eletricidade, a qual poderá ser encaminhada dentro de um raio de mil quilômetros. Este recurso é particularmente precioso num país de forte crescimento econômico onde as penúrias de energia são crônicas.

Entretanto, o projeto é duramente criticado, principalmente por causa dos seus custos ecológicos e humanos. Os detratores do projeto sublinham que ele já obrigou mais de um milhão de pessoas a migrarem à força, que ele destruiu parte de um patrimônio arqueológico e poderia desembocar numa catástrofe ecológica. Para a organização ecologista Os Amigos da Terra, esta obra exerce desde já "impactos sociais e ambientais desmedidos", e arrisca "pôr em perigo a maior cidade da China, Xangai, com os seus 15 milhões de habitantes, embora ela seja situada a 900 km de lá, no delta do Yangtze".

Talvez seja a política de gestão dos recursos hídricos que melhor ilustre a atitude da China em relação à natureza: primeiro, porque ela diz respeito a mais fundamental das necessidades humanas; em segundo lugar, porque a sua gestão é primordial para a agricultura, que emprega na China a maioria da população. Séculos de erosão dos solos conduziram, no século 20, a problemas agudos de deperecimento dos rios (principalmente do rio Amarelo), de inundações e de desertificação.

Foi para tentar remediar a esta situação que Mao Tse-tung (1893-1976) lançou, no início dos anos 50, os primeiros grandes projetos de barragens da era comunista, no rio Amarelo e na bacia do rio Huai, com a construção de centenas de barragens em cascata e de diques. O homem devia então "conquistar a natureza" . Mao era capaz de ordenar que "se curvem as montanhas e se desviem os rios" . O que, não raro, produzia resultados catastróficos: um deperecimento ainda mais grave de certos cursos de água - a tal ponto que o rio Amarelo seja hoje irreconhecível em relação ao que era - e alguns escorregões espetaculares, tais como o desmoronamento de barragens.

As provas as mais tangíveis de que esta herança prometéico-socialista sobreviveu amplamente à conversão da China às virtudes da economia de mercado, podem ser encontradas hoje na continuação de dois dos mais ambiciosos projetos da China comunista: a barragem das Três Gargantas, o mais vasto projeto hidrelétrico já realizado, e o desvio de uma parte das águas do Yangtze para alimentar o nordeste da China, inclusive Pequim.

Paralelamente, estes dois projetos faraônicos têm um custo social e humano imenso, uma vez que ambos provocaram o deslocamento de mais de 2 milhões de pessoas - mas este não é, e nunca foi, um obstáculo digno de consideração para as autoridades.

Pequim receberá de fato já em 2007 um primeiro abastecimento em água proveniente de reservatórios da província do Hebei, via um duto de 225 quilômetros, antes que o canal subterrâneo que encaminhará a água do rio Azul lhe forneça bilhões de metros cúbicos suplementares, a partir de 2010. A barragem das Três Gargantas, cuja construção foi iniciada em 1993, fornece eletricidade desde 2003. Ela estará operacional na sua totalidade em 2009, com 26 geradores e uma capacidade de produção de eletricidade de 84,7 bilhões de quilowatts-hora.

Não só a sua viabilidade nunca chegou a ser questionada, como uma obra subterrânea, que não havia sido prevista inicialmente, e cuja construção foi bloqueada no mês de janeiro pela SEPA (Administração de Estado para a proteção do meio-ambiente), obteve finalmente, semanas atrás, o sinal verde para o seu prolongamento.

Mesmo assim, o fato de a SEPA ter tentado pela primeira vez desempenhar seu papel de contrapeso, bloqueando, além daquele do Yangtze, trinta outros grandes projetos pelo país afora, é de fato revelador de uma vontade real por parte dos dirigentes de tentar dimensionar e, quem sabe, enfrentar o formidável passivo ecológico da China.

Mas os limites desta reação também são evidentes: as multas previstas pela lei são tão irrisórias que quase todos os projetos questionados continuaram a funcionar como se nada tivesse acontecido. Além disso, para os que acataram a injunção da agência governamental, a suspensão foi de curtíssima duração: prejudicada por uma carência acentuada de funcionários, a SEPA simplesmente não tem peso algum, tanto diante dos interesses que estão em jogo nesses projetos, quanto diante dos seus promotores - sociedades estatais ou privadas - ou frente aos seus principais interessados: as províncias, empenhadas numa busca frenética por fontes de energia.

Embora a proteção do meio-ambiente seja, em teoria, parte integrante, desde o final dos anos 80, das políticas prioritárias do governo, foi preciso esperar até o final dos anos 90 para ver esta conscientização se tornar realidade. O antigo chefe do Estado, Jiang Zemin, no final do seu reinado, e principalmente o presidente Hu Jintao com a nova equipe no poder, mostram-se mais preocupados com o aspecto qualitativo do crescimento e com um desenvolvimento equilibrado.

A China, que vem realizando am-rnar uma revolução industrial de uma amplidão sem equivalente na história da humanidade, cresce numa proporção superior a 9% por ano, e o seu consumo em energia provoca desequilíbrios cada vez mais preocupantes: penúrias de água e de eletricidade, esgotamento dos recursos, desperdício e, é claro, poluição generalizada.

Daqui para frente, o conceito de desenvolvimento sustentável vai conquistando maior destaque nos meios de comunicação chineses, e se tornando também uma pauta importante por ocasião dos congressos anuais da Assembléia consultiva do povo.

Além de proporcionar maiores meios em benefício dos ministérios envolvidos, o governo chinês está tentando implantar diversos programas: embora a sua eficiência ainda não esteja comprovada, eles exercem um papel pedagógico inegável junto a uma população que ainda está pouco sensibilizada ao problema.

Este é o caso, desde o início deste ano, do projeto de "PIB verde": uma dezena de cidades, entre as quais Pequim, já participam desta experiência. Trata-se de deduzir do cálculo do crescimento os efeitos nefastos do desenvolvimento sobre o meio-ambiente.

Já faz alguns anos, várias organizações não-governamentais (ONGs) ecologistas, tais como a Amigos da natureza, a Village global de Pequim e Benévolos por uma Terra verde (Friends of Nature, Global Village of Beijing e Green Earth Volunteers) vêm sendo mais ouvidas, mesmo se elas permanecem muito enquadradas pelo governo.

A China colabora muito mais do que no passado com as organizações internacionais, tais como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e, por força da globalização, ela acabou abrindo suas portas para especialistas do mundo inteiro.

A promoção do desenvolvimento sustentável atende também aos objetivos do governo: frear a todo custo um crescimento que está escapando do controle. É o esboço de uma consciência macro-ecológica, que, a prazo, deveria começar a compensar o húbris dos últimos cinqüenta anos.

Mas a China está confrontada a uma tarefa de uma rara amplidão: trata-se de debelar a destruição causada pela caixa de Pandora que foi aberta pela economia de mercado, em termos de micro-ecologia, para assim descrever os comportamentos individuais dos atores econômicos, do consumidor à empresa passando pelos municípios: pois na verdade, estes são a causa de centenas de milhares de "mini"-desastres ecológicos, os quais a imprensa chinesa tem muito raramente a autorização de repercutir.

Brice Pedroletti
Le Monde, 23 de maio de 2006

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ATUALIZADO EM 28//06/2016