Página inicial
Sala de leitura
Enem
Críticas e sugestões
Eventos
Links paratodos
videos
 


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA ALGUNS VIDEOS DIDÁTICOS CPTEC.INPE


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA JOGO – QUEBRA CABEÇA COM MAPA-MÚNDI FÍSICO


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E CONHEÇA MAPA INTERATIVO DAS EMISSÕES DE CO2 NOS DIFERENTES PAÍSES DO MUNDO E DADOS DEMOGRÁFICOS.


CLIQUE NA IMAGEM
ACIMA, E JOGUE COM O MAPA DA EUROPA


CLIQUE NA IMAGEM E LEIA AS MANCHETES DE HOJE DOS JORNAIS DE TODO O
MUNDO.


VEJA O QUANTO VOCÊ CONHECE SOBRE CONTINENTES E OCEANOS


2 JOGOS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL


CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA O MAPA-MÚNDI INTERATIVO

site www.geocienciasnomapa.com.br
CLIQUE NA IMAGEM E CONHEÇA UM SERVIÇO DE LOCALIZAÇÃO ESPACIAL DE TESES E DISSERTAÇÕES EM GEOCIÊNCIAS

  Geografia Geral e do Brasil


BIOCOMBUSTÍVEIS: MANOBRA OU VONTADE POLÍTICA?

Recentemente o presidente Lula transcreveu o slogan “O Petróleo é Nosso” da era Vargas para “O Biodiesel é Nosso”. Começam a aparecer propostas que representam um consenso mundial em tornar as políticas públicas ambientalmente mais sustentáveis. Mas até onde vai a vontade política?

Recentemente o presidente Lula transcreveu o slogan "O Petróleo é Nosso" da era Vargas para "O Biodiesel é Nosso", acrescentando que o óleo das sementes deverá constituir cerca de 10% da fórmula do diesel comum consumido por ônibus e caminhões até o fim da década. Um pouco antes, o governo do Estado do Rio de Janeiro apresentou o primeiro ônibus comercial do país movido a biodiesel. A iniciativa é parte da estrutura a ser montada para os jogos Panamericanos de 2007, o RioBiodiesel, e conta com a participação da Coppe/UFRJ e da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Ambas as propostas representam um consenso mundial em tornar as políticas públicas ambientalmente mais sustentáveis. Mas até onde vai a vontade política?

Para moradores de outras cidades como Curitiba, Ribeirão Preto e diversas outras pelo mundo, o biodiesel comercial não é novidade. Os motores movidos a óleos vegetais são tão antigos quanto os movidos a combustíveis fósseis. O inventor Rudolf Diesel já utilizava óleo de amendoim para rodar seus motores em 1897. O álcool também é um biocombustível, e o programa Pró-alcool foi reconhecido mundialmente e, apesar dos impasses, é considerado um sucesso ao possibilitar uma fonte energética viável em substituição ao Petróleo.

Cem anos movidos a petróleo
São apenas 109 anos desde a invenção de Diesel, um século que podemos chamar de Era do Petróleo. O ouro negro que brota da terra tem origem na decomposição de organismos que habitavam o planeta há milhões de anos, uma combinação de moléculas de carbono e hidrogênio de onde retiramos os componentes fósseis para a produção de óleo, gás, lubrificantes, plásticos, fertilizantes, medicamentos, tintas, tecidos, corantes, conservantes, inseticidas, armas químicas, explosivos etc. Tais produtos também podem ser produzidos de maneira mais ecológica a partir da alcoolquímica e da oleoquímica vegetal.

Pensando bem, são 109 anos nos quais a humanidade travou duas guerras mundiais, milhares de conflitos e inúmeras ditaduras ao custo de milhões de vidas humanas que foram tragicamente interrompidas. Nesses 109 anos retiramos a autonomia dos povos e concentramos a riqueza. Hoje, 10% dos mais ricos detém 54% da riqueza do restante do planeta. Países como a Nigéria, grande exportadora de petróleo, gás e carvão, tem um dos maiores índices de pobreza — cerca de 70% da sua população vive com menos de um dólar norte-americano ao dia.
Não pense que há cem anos éramos todos pobres e países com índices tão altos de desigualdade foram simplesmente incompetentes em sua administração. Não pense que há cem anos morávamos em casas de sapê, não tínhamos acesso a canais de esgoto e que o progresso é um processo democrático no qual cada país tem o seu tempo. A situação não é diferente para grande parte da população mundial e, ironicamente, são os países com recursos naturais de interesse e posição geográfica estratégica que mais sofrem com a desigualdade e seus conseqüentes problemas.

A história da humanidade é cheia de casos paradoxos e suas perplexidades. O biocombustível é um dos maiores exemplos do que poderíamos ter sido e não fomos: uma outra sociedade.

Como?
Imagine, há cem anos, se Rudolf Diesel não tivesse desaparecido (ou assassinado?) em 1913 em meio ao oceano a caminho da Inglaterra. Entre 1911 e 1912, o inventor do motor a óleo, postumamente nomeado motor Diesel, predisse: "(...) o motor Diesel pode ser abastecido por óleos vegetais e ajudará consideravelmente no desenvolvimento da agricultura dos países que o utilizarem", acrescentando que "o uso de óleos vegetais como combustíveis de motores hoje parece insignificante. Mas tais óleos podem ao longo do tempo se tornar tão importantes quanto o petróleo e o carvão são no presente momento".

O mundo de 1900 não é o mesmo de 2000, nunca fomos tão dependentes das fontes energéticas como somos atualmente. O uso anual de energia no mundo gira em torno de 10,345 bilhões de toneladas de petróleo, sendo 1,827 bilhão destinados ao transporte, 3,764 bilhão à geração de eletricidade, 2,236 bilhão à indústria e 2,516 bilhão ao comércio e uso residencial (dados do jornal O Globo de 5/2/2006).

Então continuemos. Imagine um mundo onde as máquinas não rodassem através da energia proveniente de combustíveis fósseis. Um mundo movido à energia solar captada pelos vegetais, num processo regido pelas Leis da Biotermodinâmica desde a invenção da vida. Neste caso, não se trata de imitar as plantas captando energia solar via fotoreceptores — o trabalho realizado com perfeição pelos vegetais ainda não foi tão bem copiado por nós humanos e nem acreditamos que um dia o seja.

Parte da capacidade energética dos vegetais pode ser traduzida por suas sementes. Como sabemos, as sementes contém reservas de energias para a criação de uma nova planta. Tal reserva concentra-se quando retiramos seus óleos, e isso sabemos comprovadamente desde que passamos a comê-las.

O tempo não volta
O Sr. Diesel é considerado um dos grandes gênios da humanidade, seu motor foi crucial para o desenvolvimento tecnológico de nossa sociedade, mas sua inocência não foi capaz de prever nosso perverso percurso tecnológico. O petróleo, apesar de ser um recurso finito, não está condicionado a fatores climáticos, disponibilidade de sementes, tempo de colheita e outras situações que impedem a produção de óleos vegetais na proporção que extraímos petróleo. Teriam as sementes condições de suprir a demanda energética que criamos?

A energia proveniente dos óleos vegetais representaria na época a continuação da autonomia nos campos — naquele tempo a população não concentrava-se em cidades —, pois Diesel desenvolveu seu motor de maneira a dar autonomia energética a pequenos empreendedores e camponeses. Bastava que estes produzissem sementes e obtivessem seu óleo. A tecnologia de extração de óleo não é das mais complicadas nem necessita de tantos aditivos como ocorre hoje.

Quem paga e quem recebe
A concentração de capital promovida pelas leis humanas com relação ao petróleo permitiu que as tecnologias de hoje fossem utilizadas em favor de grupos e não da humanidade. A proposta de obter energia através dos biocombustíveis não é a mesma que a de cem anos. O motivo maior de tal transferência é provocada pelo efeito estufa que está rapidamente modificando o clima do planeta. A limitada capacidade de extração não demonstra ser a maior preocupação, visto que o consumo já é maior que sua prospecção. No presente momento vivemos uma guerra que engloba indiretamente todos, pois o preço do barril de petróleo influencia qualquer economia, e apenas algumas famílias ligadas à indústria petrolífera é que jogam as cartas.

Indígenas e camponeses são hoje o alvo de maior repressão das forças de dominação provenientes de governos junto a instituições privadas. Em 2003 a FAO constatou que 97% das sementes de trigo plantadas pelos iraquianos eram de replantio ou adquiridas em mercados locais. No ano seguinte o governo norte-americano impediu que agricultores iraquianos replantassem suas próprias sementes, numa conhecida estratégia de guerra de transformar economias autônomas em dependentes. Hoje a quase totalidade das empresas sementeiras no mundo pertencem ao capital de empresas ligadas ao petróleo e às 'tecnologias da vida' — como se autodenominam as empresas de sementes transgênicas e medicamentos.

Gado, seres humanos e motores
No Brasil, grande parte da destruição de ecossistemas tão importantes como a Amazônia e o Cerrado não é causada pelo petróleo, mas pelas monoculturas da agroindústria. Numa perspectiva macabra, sementes alimentam gado, seres humanos e motores. O sonho de Diesel que talvez possa ocorrer num futuro próximo não acontecerá como suas previsões — as tecnologias atuais são exclusivas.

Organizações ligadas a movimentos sociais e ambientais tentam de todas as maneiras impedir o uso das sementes terminator no mesmo momento em que começamos a difundir os biocombustíveis a partir das sementes e plantações de eucalipto. Num curto período de tempo poderemos ver a fusão destas duas grandes forças?

Terminator
Traitor e Terminator são definições para tecnologias empregadas na manipulação genética de organismos vivos. Ambas palavras parecem ter saído de uma história de terror, lembramos que a transferência de genes entre espécies distintas é alusiva à história de Mary Shelley, onde no final a zelada criatura destrói seu criador. Não considerando a tentativa de construção moral, empregada pela autora de 'Frankeinstein' como barreira ao desenvolvimento tecnológico, devemos constar que o uso da transgenia na medicina e em cultivares comerciais ou experimentais pelo mundo tem sido regulado por instrumentos legais como o 'Protocolo de Cartagena', do qual o Brasil é um dos seus 131 signatários. Alguns países como a Argentina, Chile, Uruguai, Canadá, Estados Unidos, Austrália e Rússia ainda não assinaram o protocolo.

Já numa perspectiva mais segura e avessa ao que a história tem demonstrado, temos o exemplo da Petrobrás, que assinou um contrato com quatro empresas fornecedoras de biodiesel para beneficiar cerca de 65 mil famílias de agricultores familiares que plantarão mamona, dendê e soja. As empresas são Agropalma, Brasil Biodiesel, Soyminas e Granol e receberão um selo do Ministério de Desenvolvimento Agrário denominado 'Combustível Social'. Segundo o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, o programa vai ajudar a manter os pequenos produtores no campo: "O programa se apresenta como uma forma de consolidação do homem no campo. Cada agricultor familiar pode dizer que em sua pequena roça de mamona, de dendê, tem o equivalente a um pequeno poço de petróleo".

E novamente encontramo-nos numa encruzilhada. Apesar das tentativas de promover o desenvolvimento sustentável, hoje mais do que nunca a única maneira de continuarmos nossa petróleo-dependente sociedade em progresso é rever nosso percurso. A ciência como parceira do desenvolvimento da humanidade, e não apenas do capital investidor ausente de suas responsabilidades, é a discussão que deverá levar a continuidade das gerações futuras. Essa foi uma das pautas mais importantes da ECO 92, no encontro do Rio de Janeiro, e que ainda deixou na COP 2006 (Convenção sobre a Biodiversidade, ocorrida em 2006 em Curitiba)) suas impressões. Políticas públicas ou privadas devem conter seu compromisso com o futuro e não serem utilizadas como maquiagem verde.

Maquiagem verde
Termo que se refere ao inglês 'Green Wash', quando empresas e instituições promovem políticas ambientalmente sadias de um lado, ao mesmo tempo em que permanecem com as mesmas políticas de apropriação e degradação de Recursos Naturais.


Revista Consciência.Net,
de maio de 2006

Retornar ao índice

ATUALIZADO EM 28//06/2016