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  Geografia Geral e do Brasil


ESTUDAR A CIDADE POR MEIO DE TEXTOS NÃO VERBAIS

A fala e a escrita não são nossos únicos sistemas de comunicação. Existem vários textos não verbais que, mesmo não sendo escrita, voz, música ou pintura, informam e definem a cultura contemporânea. "As transformações econômicas e sociais deixam, na cidade, marcas ou sinais que contam uma história não-verbal pontilhada de imagens, de máscaras que têm como significado o conjunto de valores, usos, hábitos, desejos e crenças que nutriram, através dos tempos, o quotidiano dos homens". Nesta entrevista Lucrécia D'Aléssio Ferrara, professora do programa de estudos pós-graduandos em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo fala das possibilidades de. A cidade é uma unidade de percepção, onde tudo é signo, linguagem. Ruas, avenidas, praças, monumentos, edificações configuram-se como uma realidade sígnica que informa sobre seu próprio objeto: isto é, o contexto. Com formação em letras e literatura, Lucrécia trabalhou durante muitos anos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP no Departamento de Projeto, no Grupo de Disciplinas de Desenho Industrial, de onde vem seu interesse em design, arquitetura e espaços urbanos.

ComCiência - A linguagem da cidade é um exemplo de texto não verbal. O espaço urbano é uma sucessão de imagens que marcam o cenário cultural da nossa rotina e a identificam como urbana. O que se caracterizaria por código da cidade? Quais seriam as principais características dessa linguagem própria da cidade?

Lucrécia D'Aléssio Ferrara - A cidade é objeto de investigação de várias áreas do conhecimento: arquitetura, demografia, sociologia, economia. Cada uma dessas áreas estuda distintas manifestações do espaço urbano: a funcionalidade e as políticas da sua edificação, seu adensamento populacional, seus movimentos e organizações sociais, sua riqueza material e produtiva, seu território e sua geopolítica. Em conseqüência dessa múltipla atenção científica, é necessário perguntar: a complexidade científica do espaço urbano decorre da sua interdisciplinaridade ou a própria cidade é um complexo objeto de investigação porque decorre da experiência humana tecida e tramada nos meandros da vivência cotidiana? Aquela vivência constitui a realidade fenomênica da cidade e é ela que atrai a atenção das várias áreas das ciências humanas. Porém, essa realidade só é passível de estudo através de representações, de signos que, no tempo e no espaço, marcam o modo como o homem se relaciona com a cidade, dela se apropria e a transforma. A contínua transformação dessas representações desenha a imagem da cidade e constitui a linguagem da qual se ocupam, direta ou indiretamente, todas as áreas científicas que a têm como objeto de investigação. 

ComCiência - A cidade medieval é fundadora de um dos principais símbolos da cidade, a multidão, imagem que permanece até o século XIX. Entretanto, o capitalismo industrial como imagem cultural urbana descaracteriza a cidade como espaço público enfraquecendo o papel das multidões e resultando numa colisão entre público e privado. A senhora poderia falar mais sobre este processo de desaparecimento das multidões e suas conseqüências? Neste contexto, onde prevalece o privado sobre o público, quais os novos signos do espaço urbano com suas praças, ruas, etc?

Ferrara - Da aldeia à cidade cosmopolita, à metrópole ou à megalópole não há rupturas ou cisões, mas nexos e signos em metamorfose, em semiose contínua. Do flaneur do século XIX ao voyeur dos nossos dias, temos uma longa história com distintas características semióticas e interativas, porém, na atualidade, misturam-se todas as manifestações anteriores. Desse modo, o espaço público da cidade cosmopolita marcado pelas fabulações orais que zelavam pela tradição e pela manutenção de costumes e valores, expande-se no espaço público televisivo consumido através da imagem que re-apresenta, igualmente, uma escala de valores e desejos a serem imitados, ao mesmo tempo em que incorpora o espaço fisicamente privado, mas publicamente vivido. Na mesma continuidade, a cidade contemporânea, marcada pela aceleração da cibercultura, cria a compulsiva mediação de um espaço público virtual da telecomunicação e da telepresença de um coletivo anônimo que apresenta um espaço público global/local sem limites geográficos ou sociais rígidos, mas fluído e flexível expandido nas ruas do planeta.

Não se trata de lastimar de modo nostálgico a perda dos cenários da cidade cosmopolita, mas de perceber o cotidiano da cidade como aprendizagem constante de novas experiências. 

ComCiência - A senhora fez um estudo sobre a Praça da Sé, em São Paulo. Sem as multidões, qual o papel de um espaço como essa praça numa grande metrópole como São Paulo? Porque a senhora considera que esse espaço se tornou ilegível para o usuário?

Ferrara - São Paulo é uma cidade que se constrói e reconstrói na expectativa de aprontar-se para desempenhar, ontem ou hoje, o papel da maior cidade industrial da América Latina ou de incontestável destino de magalópole global. Nessa operação, a cidade não soube zelar pela manutenção dos signos que representavam suas referências históricas ou emblemáticas. Esse é o caso da Praça da Sé e do seu entorno. Na desarticulação e fragmentação da cidade rumo ao planalto da Paulista, ou das margens do Pinheiros à procura de locais rentáveis para especulação imobiliária e econômico-financeira, aqueles locais foram deixados à deriva da atenção pública do poder constituído ou da sua população e, atualmente, pagam o preço da ilegibilidade e da fraqueza dos seus significados urbanos, ainda que sejam articulados esforços para resgatá-los como pontos turísticos. 

ComCiência - A partir da segunda metade do século XX a imagem da cidade sofre o impacto de uma cultura e um consumo de massa, possibilitados pelo acesso à informação via televisão e pela grande oferta de produtos vindos de um mundo industrial que opera em constante superprodução. Se este foi o desafio para a cidade do século XX, o que se pode esperar para a cidade do século XXI?

Ferrara - O flaneur foi o ícone que celebrizou a cidade cosmopolita e escreveu sua história. O efeito zapping foi o alerta de que além do monitor não havia uma recepção passiva, e a sutileza comercial da televisão tratou de rever sua programação para identificar o receptor, tirando-o do anonimato e tornando-o, supostamente, partícipe dos destinos da sua programação e da sua aceitação pública. A megalópole do século XXI com mais de 10 milhões de habitantes não escreve o fim da história urbana, mas requer a escritura de outros capítulos cujos autores estão dispersos na realidade singular e contraditória dos lugares do mundo, mas despertos para a urgente construção de um meta-território que deve caracterizar-se pelo exercício de apropriação social e cultural das raízes que sedimentam a identidade coletiva.

É possível que, habituados a uma ação comandada e pré-definida, entendamos que esse contágio está à beira da utopia, porém essa ação surge como possibilidade de mobilizar uma consciência universal que constitui, talvez, a possível mudança do mundo contemporâneo. As manifestações populares que, à maneira de fóruns sociais, são apresentadas diariamente nos jornais impressos, falados e digitais são claros indícios de reações coletivas que acenam nessa direção e nos vários cantos do planeta. 

ComCiência - Como os indivíduos podem se orientar em meio à multiplicidade de signos que a cidade contemporânea oferece? Como isso compromete a leitura das imagens da cidade?

Ferrara - A cidade contemporânea é pluricentralizada na medida em que se verticaliza e se horizontaliza, ao mesmo tempo. Portanto, a legibilidade dos seus signos supõe operar com escrituras verbais e não verbais localizadas, mas descentralizadas ou pluricentralizadas. Ou seja, a leitura da cidade em suas imagens supõe fragmentá-la na articulação dos seus lugares e não na suposta totalidade do seu conjunto.
Um possível mapa mental da cidade vai muito além da simples funcionalidade utilitária que facilitaria deslocamentos ou direções, ao contrário, a leitura da cidade é não verbal e está diretamente relacionada à capacidade que o homem desenvolve para produzir alternativas de subsistência e a encontrar, no cotidiano, as melhores soluções para comunicar-se e encontrar-se individual e coletivamente. Trata-se de uma aprendizagem que decorre da maior experiência cultural da humanidade: aprender a viver de modo solidário. 

ComCiência - Ainda comparando imagens da cidade medieval com a cidade contemporânea, o homem medieval usava seu corpo como representação da estrutura social ostentando trajes nas procissões e em outros momentos solenes que o diferenciava dos demais. É certo dizer que o corpo como suporte foi substituído pela posse e exibição de objetos? Como isso acontece nas diferentes classes sociais?
Ferrara - Dentro da mesma concepção de que a cidade apresenta uma contínua transformação das suas representações semióticas, sem sofrer bruscas interrupções ou explosões culturais, podemos observar que desde a Idade Média, o corpo tem sido eficiente estrutura comunicativa através de signos que a ele aderem e são representações de classes, hierarquias e aspirações sociais. A moda e seus fetiches são apliques que expandem o corpo fazendo-o signo sócio-cultural que identifica classes sociais quando se distinguem pela manifestação de múltiplas preferências estéticas que comunicam poder ou expectativas de poder.

Lucrécia D´Alessio Ferrara
entrevistada por Por Patrícia Mariuzzo 
Comciência

 

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ATUALIZADO EM 28//06/2016