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DÁ PARA FAZER DIPLOMACIA NUCLEAR COM MULÁS?

A Europa apostou alto em sua habilidade de levar o Irã a suspender seu programa de combustível nuclear. Parece que o triunvirato da UE pode ter perdido. Mas o Irã já anunciou que vai rejeitar a oferta da Europa. E agora? Quando a cenoura fracassa, é hora do pau?

A Europa apostou alto em sua habilidade de levar o Irã a suspender seu programa de combustível nuclear. Parece que o triunvirato da UE pode ter perdido. No final de semana, o Irã disse que ia rejeitar a oferta da Europa. E agora? Quando a cenoura fracassa, é hora do pau?

É temporada de férias na Europa, mas o primeiro-ministro alemão não tem muito tempo para descansar. Ele cancelou sua viagem de três semanas pelo Sul da França meses atrás. Há uma semana, voltou de curtas férias na Toscana. Desde então, Joschka Fischer passou a maior parte de seu tempo falando em linhas telefônicas seguras.

Para onde quer que olhe, o ministro vê nuvens ameaçadoras: a situação desanimadora no Iraque, o conflito em Israel e nos territórios palestinos, o terrorismo e, é claro, a vitória dos radicais no Irã. Nenhum assunto incomoda mais Fischer do que o Irã, neste momento.

Há poucas semanas, o país anunciou que tinha rompido os lacres da Organização das Nações Unidas na usina nuclear de Isfahan e reiniciado os trabalhos controversos de processamento de urânio. Desde então, a Europa vem trabalhando assiduamente para firmar um acordo. Mas, no final de semana, o Ministério de Relações Exteriores do Irã anunciou que toda a diplomacia européia estava afundando: o plano tão cuidadosamente formulado pela Europa era "inaceitável".

Na segunda-feira (8/8), o Irã voltou ao enriquecimento controverso do urânio, que havia sido suspenso sob pressão internacional há nove meses. Os mulás também indicaram que estavam serenos em relação à ameaça européia de enviar a questão do Irã para a ONU, para possíveis sanções.

A resposta de Fischer foi clara e direta, insistindo que a continuação do programa nuclear só podia significar uma coisa: o Irã está tentando fazer uma bomba. "O programa nuclear deles não faz o menor sentido, se o único propósito for gerar energia elétrica", disse ele. O chanceler alemão Gerhard Schroeder disse que está "muito preocupado com a postura de confronto que o Irã parece ter assumido."

Oficialmente, a porta para a diplomacia ainda está aberta -pelo menos um pouco. Os mulás disseram que enviarão sua rejeição aos europeus nesta semana. O texto da resposta trará indicações de sua postura. Os sinais, porém, não são bons.

Hamidreza Assefi, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, disse que o documento redigido pela Alemanha, França e Reino Unido em nome da União Européia "não cumpre as expectativas mínimas do Irã".

Os europeus, enquanto isso, estão pedindo paciência e insistindo que não estão prontos para jogar a toalha. Eles convocaram uma reunião de emergência do conselho da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), na terça-feira (9/8).

Se o Irã mantiver sua linha dura --como provavelmente fará-- o caso será transferido para o Conselho de Segurança da ONU, que pode punir o país com sanções econômicas. Os europeus, entretanto, insistem que não estão preparados para tomar essa medida.

Até a opção da ONU tem falhas. Os russos e chineses provavelmente levantarão objeções, pois têm um ativo comércio de armas com o Irã. Os poderes ocidentais também resistirão a um embargo de petróleo ou gás, pois isso aumentaria os preços de energia, o que pesaria em suas próprias economias. O Irã está claramente ciente disso.

Cronologia do fracasso diplomático

Como foi que a crise chegou a esse ponto? E como foi que a grande chance da Europa na diplomacia murchou tão rapidamente? De sua parte, Fischer sabia que as negociações não seriam fáceis. Na semana passada, ele falou duas vezes com Mohammed Al Baradei, diretor da Associação Internacional de Energia Atômica em Viena. Ele também conversou com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e com colegas em Paris e Londres.

As questões eram sempre as mesmas: Como impedir o regime em Teerã de desenvolver armas nucleares? Qual será a disposição dos mulás em romper com a comunidade internacional? Será que os alemães, britânicos e franceses -principais negociadores da UE- julgaram mal a possibilidade de o Irã fechar um acordo?

Europeus, americanos, russos, chineses e israelenses, todos aceitam um fato: o regime em Teerã está tentando montar uma bomba atômica, apesar de enfatizar que está apenas interessado no uso civil da energia nuclear.

É uma situação que causa pesadelos não só para os ministros de relações exteriores ocidentais. Uma república de mulás com uma bomba nuclear mudaria radicalmente a estrutura de poder na região e geraria uma corrida armamentista nuclear entre o Irã, os países árabes, Israel e possivelmente a Turquia. Tal competição teria "conseqüências estratégicas muito perigosas para a Europa Central", de acordo com Fischer.

O ministro de relações exteriores alemão acredita tão fortemente no perigo que arriscou sua própria reputação para tentar impedi-lo. Junto com seus colegas em Paris e Londres, fez lobby para que fossem os mediadores da negociação. Eles conseguiram convencer o hesitante e desconfiado governo americano a permitir que a Europa liderasse uma negociação diplomática, em vez de agitar armas.

A abordagem européia foi considerada o oposto da adotada pelos EUA no Iraque. A cenoura devia vir na frente, não a vara. No final, Washington concordou em tentar. Não havia muito a perder. "Verdadeiramente, esperamos que os europeus tenham sucesso", disse a secretária de Estado, lavando as mãos de qualquer responsabilidade em caso de fracasso. Era uma grande chance para os europeus. A política global não seria praticada apenas por Washington, mas por Londres, Paris e Berlim.

A cenoura da Europa

Para Fischer, era uma grande oportunidade política. Subitamente, deixou de ser um mediador entre muitos, como no conflito do Oriente Médio. De uma tacada, ele estava bem no meio da crise. O Irã era o seu conflito. Se pudesse convencer Teerã a fechar um acordo, celebraria um sucesso histórico. Se fracassasse -como parece- seu legado incluiria uma grande derrota.

O ministro sabia o que ele e seus colegas estariam enfrentando. Ele sabia que as chances de sucesso eram esguias. Os europeus passaram a última semana trabalhando assiduamente em sua proposta. Quando Teerã aumentou a pressão e ameaçou reiniciar a processamento na planta de Isfahan, Fischer e seus parceiros europeus consultaram americanos, russos, chineses e israelenses. No final, todos concordaram.

Às 8h na Europa Central, no dia 5 de agosto, embaixadores europeus apresentaram ao chefe de departamento do Ministério de Relações Exteriores Iraniano o resultado. Em 34 páginas, os europeus descreveram sua "proposta de cooperação abrangente" que, de acordo com Fischer, era formulada para afastar Teerã da bomba.

A proposta é toda de cenouras. A vara ficou para trás.

Nela, a Europa concorda em:

  • Formalmente reconhecer o direito do Irã ao uso civil de energia nuclear;
  • Garantir o fornecimento de combustível nuclear para as plantas iranianas;
  • Ajudar em pesquisa nuclear;
  • Suspender limites de exportação de tecnologia.

Além disso, os europeus oferecem cooperação de longo prazo nos setores de comércio, investimento, transferência de tecnologia, educação e pesquisa em tecnologia da comunicação e computação, proteção ambiental, infra-estrutura de transportes por terra, mar e ar.

Até o turismo seria promovido, desde que o Irã assinasse um acordo prometendo não enriquecer o urânio e permitir inspeções pela agência atômica vienense. Também foram mencionadas promessas de respeitar direitos humanos, deter a violência e negociar conflitos pacificamente.

Mas os europeus não conseguiram dar o que Teerã chamou de "item central": o documento é vago sobre garantias de segurança para o Irã.

De fato, em seu discurso inaugural no domingo, o fortemente conservador Mahmoud Ahmadinejad, ex-prefeito de Teerã, indicou como era importante para o Irã manter seus direitos. Ele não se referiu especificamente ao programa nuclear, mas a sugestão estava ali.

"Queremos paz e justiça para todos. São parte integral de nossa política externa", disse ele, dirigindo-se a altos membros do governo e embaixadores estrangeiros. "Enfatizo esses dois princípios para que os países que usam o instrumento de ameaça contra nossa nação saibam que nosso povo nunca desistirá de seu direito à justiça."

Mulás não temem a Europa

Entre os elementos da proposta européia estava uma promessa do Reino Unido e da França de manter uma garantia de 1995 que poderes nucleares não iam atacar países sem armas nucleares -promessa que George W. Bush e os EUA há muito abandonaram.

A verdade é que os iranianos estão tão pouco preocupados com um ataque nuclear da França e do Reino Unido quanto estão com uma invasão militar européia. Teerã está mais preocupada com os EUA e Israel, que podem cumprir suas ameaças veladas e atacar as plantas nucleares iranianas.

O temor não é totalmente infundado. Sob ordens do vice-presidente americano Dick Cheney, o Pentágono está estudando ofensivas usando armas convencionais e nucleares há muito tempo. Os militares já estão simulando como derrubar Teerã por ataques aéreos, operações de comando e uso de tropas de terra. Até Israel disse que "não toleraria" a construção de bomba atômica pelo Irã.

Para os mulás, a oferta de segurança dos europeus não vale nada sem garantias de Jerusalém e Washington, que não estão incluídas no documento do trio europeu. Washington, que não estava pronta para se comprometer, achou fácil concordar com a proposta européia.

Os europeus evitaram quaisquer ameaças em sua proposta. Eles não teriam podido fazer muitas, de qualquer forma.

Um fator adicional é que a disputa nuclear há muito foi elevada a uma forma de guerra religiosa no Irã, onde são turvos os limites entre os defensores de um acordo e de um confronto.

Para os mulás, a questão não é sobre as necessidades de energia do país de 68 milhões de pessoas. O conflito nuclear é uma luta pelo poder entre reformistas e conservadores religiosos, que, pela má administração e nepotismo, levaram o país ao abismo político.

Irã admite tentativas nucleares anteriores

O presidente reformista Mohammad Khatami, que depois de oito anos deixou o cargo na semana passada, deu a Fischer e aos europeus esperanças de uma resolução positiva do conflito. Mas em seu otimismo, eles subestimaram o poder do líder religioso aiatolá Ali Khamenei. Sucessor político do líder da revolução islâmica, aiatolá Khomeini, ele ainda é o governante intocável do país islâmico.

Khamenei pode estar ficando mais dócil com a idade, admitem seus críticos. Afinal, as negociações com Berlim, Londres e Paris não teriam nem começado sem sua aprovação. Mas até o líder supremo e protetor da revolução está sob pressão da rede sinistra de conselhos e líderes religiosos. Em contraste com seu predecessor, Khamenei não é um acadêmico religioso reconhecido e não pode enfrentar um conflito aberto com a linha dura de suas próprias fileiras.

Os radicais não precisam pressionar o novo chefe de Estado, Ahmadinejad, para que adote uma linha dura. Mesmo antes das eleições, ele acusou os negociadores iranianos de serem flexíveis demais nas negociações com a UE.

Há poucas razões para acreditar nas declarações dos mulás de que não têm intenções de montar uma bomba. Nas capitais européias, ninguém esqueceu como o Irã tentou, no passado, esconder suas ambições nucleares. Apenas nos últimos três anos os grupos de oposição iranianos foram capazes de revelar detalhes de plantas nucleares secretas.

O regime dos mulás foi forçado a admitir que tinha iniciado a construção de uma planta de enriquecimento de urânio não autorizada em Natanz. O que se seguiu foi uma avalanche. Desde então, o governo iraniano teve que admitir:

  • Que já tinha tentado adquirir secretamente tecnologia nuclear do Paquistão, nos anos 90;
  • Que tinha construído um reator de pesquisa de água pesada em Arak, de pouco sentido econômico -a não ser que quisesse usar para adquirir plutônio para uma arma nuclear;
  • Que já tinha transformado 37 toneladas de urânio puro em urânio-hexafluorido, com o qual se pode construir "cinco bombas atômicas simples", de acordo com o inspetor da ONU David Albright.

O Irã não admitiu de boa vontade nenhuma das revelações, algo que deixou desconfiados os especialistas da Aiea. Os iranianos freqüentemente brincaram de gato e rato com inspetores da ONU. Eles proibiram sua entrada no país por algumas semanas; disseram que os documentos requisitados pelas autoridades internacionais não estavam "disponíveis" ou tinham desaparecido e deram respostas incompletas em relação a amostras contaminadas.

Depois, os mulás tomaram medidas para cooperar e ceder, como o Protocolo Adicional da Aiea, assinado em outubro de 2003 sob pressão da Europa. O acordo garantia aos inspetores da Aiea acesso não anunciado a plantas suspeitas. Sempre foi o mesmo processo: reunir fatos secretamente, provocar abertamente, concordar com concessões de último minuto, antes de romper as negociações -e começar tudo de novo.

Até o diretor da Aiea, Mohammed Al Baradei -que os EUA acusam de querer acalmar Teerã- está usando um tom cada vez mais duro. A agência ainda não tem indícios indiscutíveis que provem sem sombra de dúvidas que Teerã esteja nutrindo ambições proibidas de armas nucleares: "Não somos Deus, não podemos ler mentes."

Baradei quer uma solução política. Ele gostaria de evitar a possibilidade de o Irã revogar completamente o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, como fez a Coréia do Norte, e não mais ter que aceitar controles internacionais.

A solução política também é o objetivo de Fischer. "O Irã pode de fato se tornar um grande vencedor no Oriente Médio", disse ele. "Um país democrático e confiável poderia atingir todos seus objetivos." Mas ele não tem muita esperança de que algo assim possa acontecer.

Der Spiegel,
14/08/2005

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ATUALIZADO EM 28//06/2016