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  Geografia Geral e do Brasil


GÁS UNE E DESUNE BRASIL E BOLÍVIA

O gás natural entrou no Brasil de repente e sem qualquer discrição na virada do século: custou caro – 2 bilhões de dólares – e foi uma aposta na estabilidade boliviana. Nestes últimos seis anos, desde a inauguração em 1999 do primeiro trecho do gasoduto entre os dois países, a Bolívia teve quatro presidentes e está no quinto – três renunciaram e só um, vice alçado ao cargo, terminou um curto mandato. A aposta da Bolívia é maior: se não vender para o Brasil, praticamente não tem para quem vender.

Neste meio tempo, o Brasil ficou mais e mais dependente do gás natural. A conversão dos últimos anos incluiu boa parte da frota de táxis e ônibus, aquecedores e fogões domésticos nas grandes capitais. E vai além: só a indústria paulista consome 10 milhões de metros cúbicos ao dia. Tem o suficiente no subsolo boliviano, 1,5 trilhão de metros cúbicos na última estimativa, mas, a cada crise, a cada multidão e cheiro de revolução nas ruas de La Paz, retornam as ameaças de fechar a torneira parcialmente e estatizar o negócio que o Brasil financiou em parte.

Não é apenas o Brasil que sente esta crise de oferta. O gás natural é um combustível recente no jogo da energia mundial e, embora muitos países o tenham em seus subsolos, poucos têm infra-estrutura para exportá-lo. Alan Greenspan, presidente do Fed, Banco Central dos EUA, aponta uma crise de oferta do gás natural como um dos principais riscos econômicos pelos quais passa seu país. A expectativa da revista britânica “The Economist” é de que, em 2025, o gás natural venha a ter a importância que o petróleo tem hoje.


Problema histórico


O problema particular da Bolívia, que não resiste a ameaçar o Brasil quando pode, é sua história. Desde que os espanhóis financiaram seu império no século 16 sugando ouro e prata das minas do Potosí, a Bolívia sempre viu seus recursos naturais explorados por estrangeiros. Foi assim com o carvão, com o estanho. A vasta reserva de gás, descoberta em 1995 e que parece ser maior a cada estudo, soa a muitos bolivianos como sua última chance. Assim, a população é cada vez mais suscetível ao clamor pela estatização, pelo arrocho das multinacionais. Trata-se do país mais pobre da América do Sul.

Sem dinheiro ou know-how para tirar o combustível da terra, durante o primeiro governo Gonzalo Sánchez de Lozada decidiu-se pela procura de parceiros externos. Lozada foi o típico governante de Terceiro Mundo nos anos 90: privatizador. A diferença é que não vendia todas as empresas, mas apenas participações acionárias. No negócio da construção da infra-estrutura e exploração do gás, seus parceiros incluíram a Enron – a mesma do escândalo financeiro nos EUA –, a Shell, a francesa Total e, principalmente, a espanhola Repson e a Petrobras. Uma estatização repentina, a esta altura, custaria particularmente caro às duas últimas.

O gás natural é um combustível fóssil como o petróleo, mas tem características um bocado diferentes. Seu componente principal é o metano, que na atmosfera se transforma em dióxido de carbono e água. Ou seja, polui pouco. Demorou tanto tempo para ser explorado porque o transporte é muito difícil. Petróleo e óleos derivados são líquidos, basta pô-los no navio e carregar. O gás natural exige gasodutos caríssimos e não atravessa oceanos. Ou assim era até há pouco.

Reduzido a 170ºC negativos, o gás natural se liquefaz e ocupa 600 vezes menos volume. A técnica de liquefação só começou a ser explorada em fase de testes nos anos 60 e se desenvolveu comercialmente nos últimos anos. É caríssima: exige navios especiais – de acordo com um relatório da Administração de Informação sobre Energia dos EUA, existem apenas 206 deles no mundo; além disto, plantas bilionárias de liquidificação do gás e, na ponta do comprador, portos cuidadosamente adaptados e plantas de regaseificação igualmente caras. Sai bem mais do que os 2 bilhões de dólares do gasoduto Brasil-Bolívia. Hoje, 139 milhões de metros cúbicos de gás natural liquefeito são vendidos no mundo, isto é mais ou menos um quarto do negócio. O resto vai por gasoduto.


O melhor parceiro


O Brasil depende da Bolívia para atender sua demanda de gás natural, mas a Bolívia precisa do Brasil para vendê-lo. No fundo, o Brasil é praticamente seu único mercado de peso. Argentina ou Paraguai são quase um troco. Se, a partir de uma possível eleição do líder cocalero Evo Morales no ano que vem ou no seguinte, vier a estatização que muitos da esquerda cobram, virá também uma crise diplomática. A Petrobras, afinal, é uma estatal brasileira. A briga é com o Brasil. Quem tem mais a perder é a Bolívia.

Há um projeto boliviano, antigo, de exportação para os EUA. Mas é difícil: mesmo que venha o perdão da dívida externa prometida pelo G8, ainda assim a Bolívia precisaria pedir empréstimos internacionais altos para implantar toda a infra-estrutura de produção de gás natural liquefeito. Quem acabou de estatizar, dando prejuízo às multinacionais, teria dificuldade para consegui-los.

O problema é delicado também do ponto de vista diplomático: a Bolívia não tem litoral. Tinha até 1879, mas perdeu para o Chile numa guerra. O projeto de venda de gás liquefeito aos EUA traçaria uma rota pelo Pacífico até Baja California, no México, onde haveria a regaseificação e, então, o produto seguiria por gasoduto até a Califórnia. Mas antes tem de chegar ao litoral e, para isso, ou atravessa os Andes no Peru com um cano ou rediscute a relação estremecida há mais de século com o Chile.

Ainda assim, grupos ecologistas que são particularmente militantes e onipresentes na Califórnia não querem gás natural naquele estado americano. Não é que polua demais, mas é combustível fóssil. E os militantes sentem que, se vier oferta de gás natural bom e barato, os estudos locais de alternativas energéticas ecológicas ficarão sem incentivo.

A Bolívia terá de conviver com o Brasil. É seu melhor e maior parceiro. Até porque, em 2004, o governo brasileiro anunciou a descoberta de uma lauta reserva de gás natural no litoral de Santos. Ainda não há idéia de seu tamanho exato, mas é grande. Ou, nas palavras da professora Goret Pereira Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, "pode ser até uma Bolívia". A partir do momento em que decidir investir na exploração, a Petrobras tirará gás natural próprio em cinco anos. Tem tudo para alimentar o mercado interno e ainda exportar.

Enquanto isto não acontece, o Brasil segue precisando da Bolívia, um país em crise contínua e permanente. O novo presidente, Eduardo Rodriguez, promete eleições o quanto antes. Se tudo seguir como parece, Evo Morales será eleito. O Brasil estará à mercê de suas decisões políticas. Mas, se o povo boliviano estiver certo e esta for realmente sua última chance, fica difícil entender em que um calote no Brasil pode ajudar a Bolívia.

Pedro Doria
no mínimo (Revista Eletrônica)
junho/2005

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ATUALIZADO EM 28//06/2016